A Oficina do Cansaço

Um texto breve inspirado em um dia cheio de cansaços e desistências. Escrevo um pequeno fragmento subjetivo. Não estou a cronicar nada. Devaneio apenas sobre o fim de certas coisas, certos ciclos…. pessoas que vão embora sem dizer adeus, pessoas que dizem adeus por antecipação… E assim caminha o tempo, medroso de viver no seu tempo presente.

Os olhos vagam distraídos por uma superfície de tempo. Não sei mais o que pensar. Eu, personagem central de um tempo cronificado, balbucio histórias minhas e de outros. Histórias cansadas de existência. Meu personagem existe cansado. Mas não só ele. Quinta feira distante. Avistei um pequeno anjo. Com seus cabelos enroladinhos e suas vestes sérias, vinha ele tentar mostrar-nos coisas sobre o tempo, ditos a cerca da escrita do tempo. Era um anjo dado a escrituras. Das mangas curtas e azuis de sua camisa séria, pendiam braços finos com mãos delicadas e dedos longos. Deveriam ser mãos de escriba, deduzi. Mas seu olhar estava exaurido. Já não possuíam mais o brilho faiscante que eu havia conhecido tempos atrás. Em seu lugar, um vazio lúgubre e cansado. Entediado até. Com certeza queria ele esquecer o caminho daquelas terras e daquelas gentes que só lhe traziam lembranças estranhas.

Entretanto, conformado com sua batalha inglória, vi-o tentar explicar a escrita do tempo para certos seres distraídos. Não eram nem uma platéia. Não chegavam nem ao número de meia dúzia. Ninguém se interessa mais por assuntos menos vulgares. Idéia crônica. Assunto crônica. Cansaço crônico. Desesperança crônica. Desistência crônica. Silêncio crônico. E foi calado através de uma multidão de palavras que ouvi o último suspiro do anjo desencantado. Diante de olhares mudos, um leve sorriso de resignação. Logo mais a noite teria ele um novo martírio. Mais um falar, falar para ouvidos surdos de almas sonâmbulas. Certamente desejava que Cronos caminhasse mais rápido. Não, até o senhor do tempo parecia esgotado de suas forças. A vida seguia no modo retardado. Simplesmente cansado.

E foi assim que partiu, para nunca mais voltar. A crônica daquela Quinta feira distante não repousaria nem mesmo na memória daquele que se transformara de anjo escriba em espectro. A única escrita resultante daquela oficina fora o silêncio.

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