- Quer Ser Ator, né, Nego?

Essa pergunta era repetida inúmeras vezes por Myrian Muniz, com aquela voz rouca inconfundível, direcionando o seu olhar duvidoso para aqueles jovens deslumbrados que almejavam ser atores. Não tive nenhuma dúvida em usar essa pergunta como título do meu artigo, para também, homenagear essa artista excepcional, falecida em 2004.

Desde que me conheço por gente, sempre fui apaixonado por teatro. Reunia as crianças da rua na minha casa, prendia um lençol no varal para fazer de rotunda (sem saber o que era isso), pegava roupas velhas da minha mãe para as meninas usarem de figurino e improvisava as cenas. E “ai” daquele que não fizesse certo!!! Era chamado de burro e estava fora da brincadeira! Alguns iam chorando para casa. Estou rindo só de lembrar dessa situação. Crianças são sinceras e até cruéis. Espero não ter traumatizado nenhuma delas.

De brincadeira de criança, escolhi o teatro como profissão. Isso aos 11 anos de idade. Abandonei meu curso de inglês, minhas aulas de piano, e só concluí os cursos de datilografia – que hoje não servem mais para nada – e informática para procurar um curso de teatro. Recebi apoio, pois minha família achava que aquilo era coisa passageira, mas quando decidi abandonar o Curso Técnico de Processamento de Dados para voltar ao Ensino Médio Regular, pois meu objetivo era cursar uma Faculdade de Artes Cênicas, quase matei todo mundo do coração e de desgosto.

Eu não sei o que minha família queria... Que eu fizesse Medicina, Engenharia, Direito, que fosse Dr. em alguma coisa? Bom... mesmo sem apoio (exceto da minha mãe, que viu que não tinha mais jeito), fui cursar a Faculdade e três anos mais tarde estava com o diploma de licenciatura em Educação Artística com habilitação em Artes Cênicas na mão. Estava feliz, muito feliz.

Hoje fico pensando se optasse por outra profissão. Como ator, dramaturgo, diretor e arte-educador, nunca matei ninguém – exceto nos meus textos. Agora se eu fosse médico ou engenheiro, quantas pessoas eu não iria matar numa sala de cirurgia ou no desabamento de um prédio mal projetado por mim?

Plínio Marcos escreveu num artigo: “Ser ator é mais uma condenação do que uma dádiva.” E é verdade. Estamos condenados a isso. Eu não sei fazer outra coisa senão respirar teatro, comer teatro, beber teatro... É isso que me realiza, que me dá prazer...

Fico revoltadíssimo quando vejo alguns pais traçando a carreira profissional dos filhos. Tenho uma amiga – que não convém citar o nome – apaixonada por teatro. Sua mãe obrigou-a a buscar uma outra profissão. Mesmo contra sua vontade, ela cursou 4 ou 5 anos de Odontologia. Na colação de grau, recebeu o diploma e ali mesmo, entregou-o para a mãe. Não era um diploma que sua progenitora queria? Muito bem. Essa minha amiga não estava formada em Artes Cênicas, mas em Odontologia. Depois de concluir o curso, ela voltou a fazer teatro e está muito feliz. Só não me pergunte quais foram os estragos que ela fez nas bocas dos pacientes, que não saberei responder.

Quando Myrian Muniz perguntava:

- Quer ser ator, né, nego????

...dirigindo-se a esses jovens, com uma pausa dramática, com aquele olhar que se assemelhava com o da Esfinge ao lançar o enigma para Édipo, entendo o que ela queria dizer com isso. Será que esses jovens estavam preparados para assumir tamanha responsabilidade?

Para mim seria tão mais fácil fazer parte de uma família de artistas, pois assim entenderiam o que se passa. Mas não. Sou a ovelha negra da família, como a música do Raul Seixas. Venho de uma família tradicional, que trabalha em empregos convencionais, das 7 às 18 horas e que tem folga aos domingos e aos sábados só trabalham meio período.

Já fui chamado de vagabundo inúmeras vezes. Vagabundos não trabalham aos sábados e domingos, vagabundos não passam a madrugada toda acordados escrevendo ou decorando textos, vagabundos não lêem, não pesquisam, não têm interesse pelas coisas que acontecem à sua volta, vagabundos não folgam – quando folgam – às segundas-feiras. Isso é ser vagabundo? E o que é ser trabalhador, então? É pegar numa enxada? Vagabundo, eu?

Quando refiro à minha pessoa, também quero me referir aos leitores, que, em maior ou menor grau, passam por essa problemática. O artista é, ao mesmo tempo, a Cigarra (que passa todo o verão cantando e não fazendo porra nenhuma e no inverno morre de frio), e a Formiga (que passa o verão colhendo alimentos para desfruta-los no inverno), da fábula. As pessoas vêm apenas o lado Cigarra dos artistas, no momento em que eles estão no palco, mas o lado da Formiga, que ocorre durante o processo de ensaios, ninguém vê, por isso é fácil julgar. E quanto à estabilidade financeira?

- Será que para fazer teatro, eu preciso ter um outro emprego que me dê estabilidade?

Mas essa é uma outra questão que fica para o próximo artigo.

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