Não Aguento Mais Comer Miojo com Ovo

- Será que para fazer teatro, eu preciso ter um outro emprego que me dê estabilidade?

Essa pergunta foi feita por uma estudante de teatro para a nossa diva maior Fernanda Montenegro num programa de entrevistas. E daí veio a resposta da mestra:

- Desde que seja um emprego relacionado com ele.

Concordo plenamente em gênero, número e grau com a sua colocação... Que estabilidade é essa? A “instabilidade” do teatro é a mesma instabilidade que existe em qualquer outra profissão. Se hoje estou “estável” numa empresa, amanhã pode haver um grande corte de funcionários e, estarei no olho da rua.

Confesso que não é fácil comer miojo com ovo todos os dias (estou exagerando, evidentemente, mas já passei por isso). Mas quantas pessoas que trabalham em outros empregos considerados “estáveis” e não comem a mesma coisa?

Conheço muita gente que é advogado de dia e ator à noite. São profissões completamente distintas. Mas não recrimino. Sei que vivemos num mundo capitalista e que sem dinheiro não fazemos nada. Dizem que o homem vale o mesmo que tem no bolso. Menosprezo essa frase. O homem vale pelo que é, não pelo que tem. Como já disse outras vezes, odeio frases feitas, mas na impossibilidade de encontrar outra, acabo usando-as quando necessário.

São escolhas, se o cara quer ser advogado e fazer teatro por “hobbie”, beleza, vai fundo. Só que não vejo o teatro como “hobbie”. Agora se o cara quer ser ator e não coloca o teatro em primeiro plano e sim uma outra profissão que em nada tem a ver com a arte da interpretação, sinto dizer, mas o teatro não é pra ele.

E também não adianta trabalhar uma vez por semana ou aos sábados e domingos. O teatro, como qualquer outra profissão, tem que ser diário, com a mesma carga horária da outra profissão. As pessoas não trabalham em média 8 horas por dia? Aí você marca um ensaio de 8 horas e o fulano reclama: “É muito tempo.”

Muito tempo, mané? É a carga horária de qualquer trabalhador. Por esse motivo você não consegue pagar as suas contas. Ensaia três ou quatro horas e depois encosta a barriga num balcão de bar e com um copinho de cerveja fica reclamando da porra da profissão em seus devaneios de bêbado. Se apresenta uma ou duas vezes por semana num espetáculo de uma hora e diz que não consegue ficar rico... Faz-me rir, babaca... Merece ficar rico quem trabalha das 8 às 18 horas num emprego e das 19:00 às 00:00 horas em outro de segunda a segunda. Esse sim, merece ficar rico porque TRABALHA.

Tem muitos atores que fazem dois ou três espetáculos por dia – um infantil a tarde, o outro no horário nobre e o terceiro à meia-noite. Sem contar aqueles que fazem teatro, TV e cinema ao mesmo tempo. Será possível? É possível. Tem ator que faz isso e que merece todo o nosso respeito.

E os grupos, como o meu, que sobrevive da bilheteria? Cada apresentação é uma incógnita, porque nunca sabemos quanto vai entrar de grana. Mas uma porcentagem da apresentação de hoje, na de amanhã, na de depois de amanhã, some tudo e veja quanto dá. Pode ser uma micharia que, acrescentada com suas outras atividades no mesmo ramo – em outros espetáculos ou em outras atividades, te dará uma certa estabilidade financeira. Mas é preciso ralar, meu chapa, ralar muito. E tem mais, se você não se arriscar, não colocar a cara a tapa, quem vai saber que você é artista?

Eu poderia cobrar por cada linha que escrevi e escreverei de todos esses artigos. Não ganho nenhum centavo. Faço isso por puro prazer. Escrever pra mim é um hobbie. Eu descanso, escrevendo. Acredito que todo artista deveria fazer do trabalho o seu momento de lazer. Tatiana Belinky sempre diz que: “o artista descansa trabalhando”. Agora, grana é conseqüência de muito trabalho.

Ivani Ribeiro disse certa vez: “Trabalho é esforço. Se nos esforçarmos bem, o trabalho sairá sempre melhor.” E é com a frase desta grande novelista, falecida em 1995, que encerro mais um artigo.

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