O Preço do Patrocínio

Se até morrer dá despesa, montar um espetáculo não é diferente. Mesmo colocando em prática a proposta de “um teatro pobre” defendida por Grotowski, renunciando ao cenário, palco e qualquer apetrecho que não seja o próprio ator e seu corpo como único suporte para teatralização, não tem jeito. Vai ser preciso botar a mão no bolso, assinar um cheque ou passar o cartão, para pagar alguma coisa. Até porque essa “pobreza” defendida por Grotowski trata-se de despojamento, não significa a pindaíba que a maioria sofredora que faz teatro está acostumada.

Infelizmente, qualquer alma mão-de-vaca tem de admitir que gastar é inevitável. As despesas possuem o seu caráter de imprevisibilidade. Elas surgem de tudo que é lado, quando menos se espera. E é isso que dá raiva! Em cena a atriz torceu o pé? Tem que levar pro pronto-socorro. Vai ser de graça? Mesmo levando a coitada numa cadeirinha feita no braço, depende. Se ela agüentar cinco meses para tirar uma radiografia pelo SUS e o diretor não precisar de uma personagem eternamente manca, tudo bem. Ou então a saída é buscar o dito patrocínio.

O patrocínio é visto como a solução providencial. E no fundo aí está uma grande verdade. Ele pode ser considerado o maná que salva a companhia ou grupo teatral de ficar a ver navios. É a grana, a bufunfa, o capim. Mas nem tudo são flores nem notas de cem reais. Há um lado obscuro do patrocínio. Ele cobra o seu preço. O problema é que submete o teor da peça à aprovação do patrocinador. Nada demais, à primeira vista. Muito natural, por sinal. Só banco o que gosto. Afinal, “eu tô pagaaaandoo!” E ninguém, acredito eu, é idiota o bastante para achar que alguém ou alguma empresa vai gastar seu dinheiro naquilo que possa lhe incomodar. Não, não vai. Nada de comprometer uma zelosa imagem, bancando uma peça “porra-louca” que possa desagradar a clientes ou amigos. Negócios são negócios, arte à parte. É obsceno, mas não é ilegal. Fazer o quê! A arte só tem seu real e imensurável valor na cabeça do artista mesmo. Mas uma questão precisa ser levantada. Peças teatrais interessantes, que possam suscitar alguma polêmica, tratando de questões indigestas, costumam pagar o pato pela sua ousadia, ficando somente no papel.

O cemitério das peças anônimas que foram abortadas por falta de patrocínio está repleto de asneiras, mas também de criatividade. Daí aquela impressão, que paira sobre nossas cabeças, de que o teatro está rançoso e todas as suas propaladas manifestações subversivas não surpreendem nem mesmo nossos avós, ter fundamento. O que está badalado e em cartaz parece tudo igual, com temas batidos e adaptações exaustivas dos clássicos. Nem as velhas apelações surtem mais efeito. Genitálias à mostra e palavrões a torto e a direito, que peninha!, mas já está tão démodé. Felizmente.

Para não se instalar o tédio, renovar é preciso. Só que a renovação carece muitas vezes de textos que geram polêmica e criam mal-estar, para abrir seus caminhos. Porém isso não é uma regra, o que no final das contas é ainda mais triste. Sem se destacar pela polêmica, mas empregando a valiosa criatividade, muitos dramaturgos não contribuem para enriquecer nosso cenário teatral, porque simplesmente têm o seu talento ignorado. Afinal, mais do que arte, o teatro se tornou um negócio. Produtores pouco ou nada comprometidos com a qualidade optam pelo caminho mais fácil e cômodo do sucesso. Montam somente peças estrangeiras para dar maior credibilidade e obter patrocínio. Até porque, quando dizem que lá fora algo é bom, aqui é difícil se contestar. Diarréia de gringo aqui é purê (torço para que algum filósofo esteja de plantão e registre estes meus sábios aforismos).

O fato é que desconfio, quando mega-empresas públicas ou privadas se auto-intitulam grandes patrocinadoras da “cultura”. Podem até gastar toneladas de dinheiro. Mas que cultura é essa de que estão falando? Cultura mesmo no sentido amplo da palavra ou uma cultura com restrições? Há uma grande tentação para quem gosta de pôr o cabresto de mostrar a “cultura” que apenas lhe interessa. A cultura para turista ver e o nativo adotar recheada de alienação. Será que existe espaço para arte cênica que contesta e denuncia? Uma arte que padece da censura que o patrocínio lhe cobra. Desconfie. Da próxima vez que for a um teatro, repare se não está vendo gato por lebre.

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