De quatro no ato PDF Print E-mail
UARLEN BECKER
Escrito por UARLEN BECKER   
10/12/08 - 09:12
Sou aluno do curso de Direção Teatral e faço parte da equipe que organiza o Projeto Ato de 4 da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, em Salvador. É um projeto de extensão criado por alunos e consta de quatro cenas independentes de 15 minutos cada e acontece todas as segundas feiras. Fiquei curioso em saber como tudo aquilo se processa. Participei duas vezes do Ato: a primeira quando não era da Escola, em 2003, com uma cena de Hamlet (a cena dos atores) de Shakespeare; a segunda em 2006 com uma cena de O Balcão, do francês Jean Genet. Eu via aquela correria, atrasos, descontentamentos, queixas e críticas as mais diversas. Sempre achei a Sala 5 (local onde acontece o projeto) muito atraente e charmosa. Ter um espaço que comporta 70 pessoas com um espaço livre para se fazer qualquer coisa, alguns refletores, aparelho de som e público garantido e tudo isso de graça! E mais: alguns apresentaram (e apresentam) peças inteiras, que muitas vezes são grandes realizações e fazem sucesso fora da Escola sem pagar pauta! Sei que muitos se queixam da sujeira, do ar-condicionado que quebra muitas vezes, da falta de manutenção. Mas nunca ouvi alguém propor um mutirão para limpar o local, dar uma manutenção, uma cota de doação material e do próprio suor! Isso pode ter ocorrido mas eu nunca vi. Longe de mim tirar conclusões precipitadas ou julgamentos errôneos. Mas voltando ao Ato de 4, creio que o projeto não carece de nada.

Os alunos atores e principalmente diretores é que devem pensar o teatro de forma mais ambiciosa e ousada em todas as suas possibilidades enquanto ciência e instrumento político de modificação do ser humano e da sociedade. Será que o "politicamente correto" em seu mal sentido está tomando conta de tudo? A juventude tem medo de quê? O que se quer discutir? atualmente? O que você gostaria de dizer para a sua comunidade (comunidade real, do bairro, da cidade e da própria Escola de Teatro, não as comunidades virtuais e tolas em sua maioria do famigerado Orkut)? E a pura e simples diversão, item essencial ao teatro, segundo os grandes gênios dessa arte milenar? E o compromisso e a seriedade com as coisas? Não se pode fazer teatro como você assiste TV na sala de sua casa, inteiramente a vontade! Ou pode? Alguns, da turma da relativização das coisas, dirão que pode, que tudo é relativo. Mas relativizar demais não é ficar sobre o muro, carecer de opinião, vestir alguma camisa, defender uma idéia? Ou será que ficar em cima do muro é defender uma idéia?

O que tenho visto é uma mornidão excessiva! Sempre a velha tentativa de acertar, mas sem levar em consideração a platéia. O público é o principal alvo de todo e qualquer espetáculo de teatro. Sem ele não existe teatro, apenas uma punheta egoísta e solipsista. Aquele espaço da Sala 5 é dos alunos, e o Ato de 4 um projeto de experimentação da inúmeras possibilidade contidas na cena. E a velha e boa Dramaturgia? Jaz esquecida em algum lugar? E a nova dramaturgia, tripartida, sem fórmulas e na qual tudo pode naquele que a fortalece, será que já perdeu o gás? Creio que não! Todos em busca de fórmulas prontas. Ninguém quer suar a camisa com pesquisa, ensaios exaustivos, um olhar profundo sobre a sociedade que nos cerca e sobre o público da Escola, da Sala 5 e do Ato de 4! Vi muita coisa bacana no Ato de 4; também vi muita cena equivocada. Mas isso faz parte do projeto que se quer experimental, não para projetos acabados e obras primas! Um dos maiores equívocos é fazer uma cena legal, ser aplaudido (a) e pensar que é a Sarah Benhardt ou o Paulo Autran. Até porque eles já morreram; e o Paulo Autran não pensava que era o Paaaaaulo Autran! Façamos cenas de nossas montagens no Ato, como forma de teste, de ensaio aberto. Não é assim que fa o Peter Brook, um dos maiores encenadores que o teatro já viu? Quantos professores inscreveram cenas no projeto? É proibido? Gritemos aos diretores de fora da Escola. Que tal colocar uma cena no Ato? Enobrecer a proposta com o brilho de seu nome e de sua história? Vamos perguntar se a Aninha Franco (dramaturga baiana)não gostaria de escrever uma cena para alguém apresentar no Ato? Vamos indagar o Fernando Guerreiro (diretor de teatro) se ele não gostaria de disponibilizar uma cena de suas deliciosas comédias para o Ato? E a Companhia de Teatro dos Novos (grupo residente do Teatro Vila Velha, de Salvador)? Não poderiam inscrever uma cena? Que tal um mês inteirinho com cenas do módulo I (cada semestre da Escola de Teatro da UFBA é dividido em módulos) de direção e interpretação como forma de avaliação final sob a coordenação do Marfuz (diretor de teatro e professor doutor)e da Iami Rebouças (professora, atriz e mestra em teatro)?

Será que estou sendo ingênuo? Ou o nosso tempo é mesmo o da indiferença e da exacerbada individualidade? Ao invés de apenas criticar, façamos algo para erguer, resgatar, melhorar, desatar os nós da preguiça e da ignorância mental, artística e cidadã.

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