A superficialidade dos tempos modernos

Ainda ontem, cadeiras decoravam as calçadas das cidades, crianças brincavam soltas pelas ruas, a amizade com o vizinho ao lado, era de fato uma amizade e o respeito ao semelhante era uma virtude. Hoje, carros passam apressados pelas ruas, a violência enclausurou nossas crianças e os vizinhos, quem precisa deles?

 

A vida em comunidade não existe mais, mesmo que em momentos de catástrofes, alguns ainda se mostrem solidários, a maioria é apenas uma casca usando roupas de grifes e passeando de carro importado. Hoje, a cultura do cada um por si é o que está em voga e o meu direito não mais termina quando começa o do outro. Ora, pouco me importa o direito do outro!

 

É isso, não se pode tapar o sol com a peneira, as pessoas estão superficiais, ninguém quer compromisso, ninguém quer envolvimento, parece que as pessoas estão praticando a cultura do eu sozinho, ou do cada um por si. Vive-se com o medo de tudo, até de sofrer. É a superficialidade dos tempos modernos afastando o ser humano das coisas básicas da vida.

 

Tudo isso acaba refletindo nos programas de televisão, nas peças de teatro, nas novelas. Ninguém mais busca o ser humano pela emoção, a preferência é sempre por, barracos, catástrofes, baixarias e pelo riso fácil de piadas sem graça. Não se faz pensar, refletir, não se questiona mais, não se provoca. E mais e mais o ciclo vai piorando.

 

Nestes tempos de relações artificiais, onde bisbilhotar a vida alheia é mais interessante do que entender o porquê de tanta injustiça social, precisamos, nós que temos o poder da palavra, usá-la com toda a nossa força para direcionar o leme deste barco à deriva que se tornou a vida humana, fútil e vazia, onde o mais importante é saber se fulano se separou de sicrana, ou se sicrana está tendo um caso com a beltrana.

 

É claro que não precisamos ser sempre ácidos e melancólicos, muito menos reacionários, até porque, rir é e sempre será melhor do que chorar. Usemos, então, o poder da comédia para criticar, ironizar, apontar os defeitos e até mesmo caçoar da insignificância do homem moderno e a sua interminável preocupação com a matéria.

 

Cada dia que passa, pior fica o ser humano, acomodado na superficialidade das coisas sem importância.  E, se ao invés de tentarmos instigá-lo, provocá-lo, fazê-lo refletir no espelho a sua mesquinhez, continuarmos insistindo em alimentar a sua superficialidade, em pouco tempo, não teremos mais homens interessados em ler nossos livros.

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