OUVIR E ENTENDER MÚSICA PARTE 4 Tipo compositor e as ligações

Coelho De Moraes baseado na obra de Aaron Copland

 

O ouvinte com veleidades ou devaneios românticos parece gostar mais do compositor de inspiração espontânea que aparece nos filmes e livros, como Schubert ou Hugo Wolf. Muita vez começa a trabalhar com uma composição completa escrita na cabeça, como Mozart, e não com um tema escolhido. Mas, é certo,  trabalhavam, os primeiros, com formas simples: Concertos e lieds ou canções onde o improviso pode ter lugar quase que obrigatório.

Ainda hoje tem gente que diz que improviso não é música de valor. Tais pessoas devem entender que o improviso é música que não foi escrita. Só. Como a historia oral dos primevos. Não se escrevia e a historia era relatada em volta da fogueira.

Improviso é uma forma de fazer música.

Se é mais fácil ou menos fácil executar fica por conta de cada um.

No entanto, é mais difícil improvisar em Sinfonias. A música solista se presta, até,  para improvisos onde e muito do executante está ali presente,  do que as supremas catedrais da composição onde quase tudo do compositor está ali presente. É claro que no renascimento, ou barroco era possível, dentro da estrutura musical em concerto, que musicistas de estatura, spallas de naipe, tivessem a permissão para criar desenhos e melodias, sem fugir do ambiente sonoro ora em desenvolvimento.

Beethoven é o tipo construtivo de catedrais. Um pedreiro de poder inegável. Chefe de obras que manejava e comandava suas invenções. Beethoven era RPM – revoluções por minuto. Cada sinfonia foi um passo em direções diferentes e sempre inovadoras. Inicia na cola dos mestres e na nona vira o mestre supremo. Qunado adentra os quartetos já vislumbra o atonalismo. Beethoven era pedreiro e profeta. Prometeu era ele mesmo. Nem todo mundo pode. Nem todo compositor é assim.

Há sempre, porém, um processo de criação. As idéias são anotadas, escolhidas, selecionadas, coletadas, substituídas, por muitas vezes. Beethoven começava com um tema, partia de idéia germinal e construía sua obra, após.

Bach e Palestrina eram compositores tradicionalistas. Viveram em um tempo em que o estilo atingia seu apogeu. Então tratava-se de criar música em estilo já conhecido e aceito, apenas trabalhando para fazer superar o que já estava pronto. Levar o estilo ao auge.

No caso de Schöemberg, dando um salto de séculos, temos o tipo pioneiro, era criar do nada um sistema novo, novíssimo, com a codificação de nova linguagem. Surgiu aí o serialismo, o dodecafonismo. Leitura de uma época. Ele mesmo dizia que aquilo que acabava de criar, novo para ele também, não era fruto de seu capricho mas era a percepção histórica do caminho que a musica seguia. A música e a humanidade.

Schubert e Beethoven buscavam a originalidade.

Wagner dizia: - Dê-me três notas e eu construo uma ópera.

Mozart, Bach e Palestrina melhoraram o que já encontraram pronto.
Gesualdo, Berlioz, Mussorgsky, Debussy, Edgard Varèse, eram heterogêneos em suas idéias, viveram em épocas diferentes, mas foram pioneiros e criadores de novos estilos e misturavam vários deles. ‘Fusion’ da época.  Experimentais, à caça de novas harmonias, novas sonoridades, novos princípios formais.

O compositor, observando suas idéias, as quer ligar, dando organicidade e continuidade à composição. Para tanto ele levará em conta o uso das pontes.  Caminhos inter/ideias.
A ponte é o material intermediário de menor valor e qualidade, servindo apenas como elo entre os temas. Claro há que determinados compositores criaram pontes que são obras primas em si mas na observação da peça no todo vemos que não passam de pontes.

O critério do alongamento é outro objeto útil para a  composição, muito usado por Wagner, por exemplo. Há, sempre, o desenvolvimento do material escolhido. O mesmo material toma formas diferentes ao longo da peça.

Em suma, temos: idéia germinal (a semente de tudo), a adição (soma) de idéias menores, o alongamento das idéias (as pontes) e o pleno desenvolvimento (variações temáticas ou tonais) das mesmas idéias.

Cabe ao compositor organizar esses componentes de modo a dirigir o ouvinte no desenrolar de sua história ou música. É uma composição. Tem vários segmentos seguidos de pausa ou não. Pode ter vários movimentos que constroem mundos diferentes. Pode ser num movimento único.

O trabalho deve ser feito de tal forma que o ouvinte não perceba, muito claramente, onde começa a inspiração e onde começa o trabalho braçal do compositor.

Tchaikovisky dizia que 10% era inspiração, e o resto era trabalho braçal. Transpiração. Do seu copista, principalmente.

Em resumo: A solda dos componentes do comboio não pode estar perceptível.
É lógico que o compositor pode lançar mão de moldes prévios que evoluíram com o tempo: valsas, danças, sonatas, fantasias, rapsódias, fundi-las e mutá-las,  e uma série de outras formas à sua disposição, além do material de seu país. Mas toda invencionice tem que mostrar critério ou então se torna lançar notas ao ar e o que cair na pauta é música. Pode até ser contanto que já seja esse o critério e o compositor  terá que admitir que jogou as notas para o alto.

Quando o compositor diz que a música foi feita no modo sonata ele expõe o critério.

Buscar a grande linha. Buscar a coerência. Buscar os critérios. Buscar o sentido de fluência, de continuidade que liga a primeira à última nota. Buscar a leitura e a novidade.

Se for para ouvir o mesmo ligue o rádio. Toque o CD de sempre.

Na verdade, esse é o desespero maior de todo o compositor. É como um Amazonas feito pela mão humana.  A música tem que fluir. Ela pode nascer numa tromba d’água ou no filete de uma fonte.

Para quem tem talento: diversão.

Para o que tem menor talento: sofrimento.

Boito dizia que enquanto ele suava, chorava e se mordia para fazer aparecer um pequeno tema, Verdi, o revolucionário Giusepe, de Othello e Falstaff, já terminara sua obra e começava outra com gênio e beleza.

Hoje devemos ouvir: Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e o violino de  David Oistrach.

 

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