DRAMATURGOS E ENCENADORES: CORREI QUE A LUA PEGA


Coelho De Moraes

 

O espírito livre é arrojado: enfrentará a possibilidade de naufrágio de sua fantasia, mas é de fantasia que falamos e de apresentação dessa fantasia sobre palco, endereçada para muita gente que assiste e corre o risco de bater palmas – TEATRO. O ensaio de cada peça, de cada rotina, de cada cena ou detalhe  retoma o ócio infantil e o entusiasmo pela repetição que leva ao caminho da perfeição, - nunca alcançada. Condição de espelho o Teatro é o reflexo da platéia que se olha, havendo mudanças e alteridades. Como o poeta efebo que goza a influência do mestre, mesmo que este lhe passe a mão várias vezes com o mesmo gozo – sinais de bênçãos? -   até encontrar a liberdade de sua letra e de sua obra e de seu expressar,  e viver a angústia final cuja influência é a de não poder não escrever: transforma-se em autor singular. O ensaio termina quando encontra o fim, a exaustão,  quando é abandonado, pois se estanca para não prosseguir no que está dizendo, sendo esta a hora de uma alteridade anônima verificar sua demonstração. O fim do dia não é fim de ensaio. Mas apenas parte do fim. O fim do ensaio é quando traz a exaustão intelectual, ou emocional, ou espiritual. Momento raro. A exaustão física não traz nada. Traz a cama, talvez.

O ensaio reflete, não contenta, não classifica. O ator, o dramaturgo, o encenador, a atriz, possuem inteligência desviada: deliram e inventam coisas onde nada há. Pura subjeção. É a ficção que lhes serve de sangue, de linfa, de suor, de adrenalina,  buscando o domínio da invenção, da criatividade diante do já feito, já visto, e também do nunca tentado. Uma espécie de beira do abismo. Reúne, portanto, o ser humano  de fatos da ciência com o ser humano  aéreo da poesia. O deus da tecnologia, sei lá quem é, com Orfeo e sua lira.  Aceitam o terror da proibição de dizer além do já dito (ADORNO, 1965). O ensaio possui uma autonomia estética, - para quem consegue lapidá-lo, -  e desconfia do modelo canônico e positivista de conteúdo. A máxima que surge é aquela de se ouvir que não importa a história mas o modo como ela foi contada. Vale a voz da atriz e do ator. Valem seus movimentos e seus corpos ocupando espaços impensados. A história será secundária. Às vezes tem que ter história pois o aprendiz de ator não acha que faz teatro de usar uma roupa grega, por exemplo.  A consistência não brota da retirada do sujeito dramaturgo da equação, de sua supressão em favor da quimérica neutralidade literária; a consistência  brota de sua inclusão e revela um autor na opacidade, ilustrando as cenas  como espírito criador à distância, na pior das hipóteses; ou, na melhor das hipóteses, um autor cuja clareza é cortesia de gênio.

Para quem participa ativamente dos ensaios, autônomo na estética, não existe imposição da forma tradicional, mas somente aquela do espírito poético literário dogmático e obstinado. Como na literatura de Proust, traz-se à tona a sensibilidade do escritor/dramaturgo que vai além da arte e é capaz de enunciar conhecimentos profundos e sólidos sobre o ser humano e sua posição no universo.

Pensemos com Freud:  o escritor/dramaturgo, sua sensibilidade, possui a coragem de deixar falar o inconsciente (a obra de arte é uma confissão do autor/dramaturgo, exposição de alma, explosão de espírito); capacidade de perceber pulsões ocultas no espírito das coisas e das pessoas outras que lhe são reflexo.

Os escritores/dramaturgos desejam proporcionar prazer estético e intelectual através de efeitos emocionais. Não podem re-produzir a matéria da realidade sem modificá-la. É necessária a transcrição, a adaptação, a alteração de sentidos quando se trata de peça que tem 500, 200, 10 anos de idade. Tudo deve mudar. O texto não pode ser intocado. Não pode haver direito autoral sobre coisa inspirada na realidade de terceiros.  A ficção é audaciosa: mas a renúncia ao princípio do prazer (Freud cita sobre a ciência como sua  mais radical representante) é relativizada na forma do ensaio, da repetição :-  toda ficção deverá ser corrigida pelo diálogo com a alteridade. E alteridade é princípio de realidade. O outro é o dono do direito autoral e não quem retirou dali as letras do texto.

Em provisória análise, o ensaio deve romper com a tradição de impor percurso de aquisição de conhecimentos. Atrizes e atores não podem temer desafios, pois desafios é o que mais há nessa profissão. Atriz e ator buscam a complexidade de um autor/dramaturgo, de um tema.  O ensaio não tolera o engodo de que para entender o complexo é preciso primeiro cortejar o simples.  O ensaio é como a vida: sempre inconclusivo para o seu autor/dramaturgo/encenador, pois no dia da morte, no dia da estréia, apenas os que ficarem poderão falar do que restou, enquanto o autor/dramaturgo/encenador jamais poderá extrair aprendizagem da vivência radical e derradeira que é galardão de atrizes e atores.

Enquanto se vive, se pode ensaiar. Mas, o espetáculo é, também, uma forma de  ensaio e não haverá outra chance para cada ato, cada cena - o autor é ator de um drama singular, inadiável e intransferível que lhe compete na escrita e na criação das ligações perigosas.

É amarrar a alma numa âncora, deixar longa corrente, e lançá-la no palco.

 

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