Piada interna

Como reagir quando alguém na “vida real” dá a sua deixa ou fala o texto de uma peça que você está ensaiando?

Termina o texto, correndo o risco de a pessoa não entender, e ter de explicar a cena?

Você entra com a sua fala e quem deu a deixa, sem saber, solta um sonoro:
- Hããã!
E você responde:
- Nada, pensei alto.

Há outra hipótese também, talvez esta seja a mais comum. Fala mentalmente o texto, faz aquela cara de bobo que só a paixão por algo ou alguém é capaz de produzir, seguida daquela chacoalhada de cabeça para desfazer o semblante.

E as montagens feitas há anos, que de tão especiais nunca esquecemos as falas? Sem contar as falas das outras personagens, que de tanto ensaio decoramos também.

É claro que tudo no teatro é extraído do dia-a-dia, só que na maioria das vezes o interlocutor não conhece a peça, e a deixa foi dada na hora mais imprópria para brincadeira. Tenho três cenas que volta e meia surgem fora dos palcos.

Às vezes ao se despedir das visitas que recebemos nos finais de semana em casa a minha mãe diz:
- Não vai fica mais um pouco.
E na minha mente entra em cena Joana furiosa com Jasão em Gota D’água de Chico Buarque dizendo:
- Isto não fica assim!

No trabalho marcando uma nova reunião alguém fala:
- Quando é que nós três vamos nos encontrar de novo?
Eis que me aparece a primeira feiticeira da peça Macbeth de Shakespeare sugerindo:
- No raio, na chuva ou na tempestade?

E a supercampeã, a que mais sai do palco e entra no meu cotidiano, só que esta as vezes não vem certinha, geralmente tenho que adaptar a fala da pessoa.
- Sabe onde eu fui hoje?
Logo respondo:
- A cartomante, aquela que me recomendaram. (Zulmira falando com Tuninho em A falecida de Nelson Rodrigues).

Confesso que na maioria das vezes completo as falas. Não costumo explicar cena nenhuma, acabo servindo de prova para as pessoas afirmarem “esse povo de teatro é tudo doido”.

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