Nelson Rodrigues não é pornográfico

Por que na maioria das vezes quem monta alguma peça de Nelson Rodrigues opta pelo caminho mais comum de transgressão como, por exemplo, o nu? Os textos de Nelson já são fortes, contestadores e ousados o suficiente para os padrões de uma sociedade cristã como a nossa. Então porque não propor algo diferente do que todo mundo faz e atrair o publico conservador? Cenas “apelativas” só aumentam a opinião do publico, leigo em geral, de que em Nelson Rodrigues só há baixaria. Fazendo com que o drama, o conflito, o desespero das personagens e a mensagem fiquem em segundo plano.

Assisti tempos atrás a montagem de Doroteia do grupo das Dores; Doroteia é um texto repleto de metáforas, uma linguagem que beira o surrealismo, escrito na mesma época que surgia o teatro do absurdo. A atriz que representava a personagem titulo usava um vestido vermelho com fendas laterais – lindo- que já era o suficiente para diferenciar o perfil de Doroteia das demais personagens, pois todas as outras mulheres usavam roupas pretas que cobriam o corpo inteiro de uma forma bem recatada. Mas pelo visto o contraste dos figurinos não foi suficiente para o diretor. Porém aos poucos a atenção do publico foi transferida e o foco da peça deixou de ser uma mulher desesperada querendo ser aceita na família e passou a ser:

A atriz está usando ou não calcinha? Depois de uns passos mais largos que a atriz deu, foi possível a confirmação da ausência da roupa intima. Confesso que fiquei constrangida de ter me desligado do assunto principal da peça, mas por outro lado aliviada por ter sanado tal duvida. Voltei a prestar a atenção na peça, mas então uma vontade incontrolável de ver logo a cena que justifique o porquê da atriz estar sem calcinha surge e esqueço da trajetória de Doroteia e espero ansiosa a cena que justifique a falta da calcinha. Só que a cena não vem.

Não sou nenhuma puritana, mas acredito que tudo que este grande autor escreveu foi para trazer à tona a reflexão de tabus que até hoje são de delicadas discussões e não chocar por chocar. Vamos ter mais respeito à obra e propor soluções criativas porque o mais difícil o gênio já fez. Escreveu excelentes obras e levantou a discussão.

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