É Preciso Descentralizar a Cultura

Outro dia assistia a um programa jornalístico (não me lembro o canal) onde uma questão cultural foi discutida. Um dos participantes disse que no Brasil a centralização da cultura é muito grande. Quase toda manifestação artística encontra-se presente no eixo Rio – São Paulo. E quando falamos de oportunidade para se mostrar, aí acredito que a concentração nesses pólos é ainda maior. O entrevistado disse também que temos no interior do Brasil várias cidades que são pólos de outras áreas. Há grandes centros econômicos, turísticos, industriais, educacionais até. Mas quando falamos de artes e cultura, daí a história já é outra. É apenas nas capitais que os artistas têm real possibilidade de exibir seus trabalhos para um grande público. O que por conseqüência faz com que apenas nas capitais o público tenha chance de acompanhar a produção cultural.

Bom, o painel é ainda pior, já que nem todas as capitais têm esse benefício. Na verdade a minoria. E percentualmente falando o eixo Rio – São Paulo deve ficar com quase todo o “bolo”. E como o entrevistado discutiu, da mesma forma que há pólos dos mais diversos setores no interior do Brasil, é necessário que haja também pólos culturais. As artes têm que chegar até a população que está fora das capitais.

Atualmente na cidade de São Paulo há cerca de 130 peças de teatro em cartaz, cerca de 60 filmes e mais algumas dezenas de mostras, eventos e shows. No Rio de Janeiro os números devem ser parecidos. Eu não possuo dados nacionais, mas acho que poderia apostar sem medo que os números dessas duas cidades somados devem representar pelo menos a metade de todos os eventos culturais acontecendo nesse momento no país. E isso é algo muito preocupante.

É fato que a educação é a base para qualquer sociedade. E é na verdade o que difere os países ditos de Primeiro Mundo dos ditos de Terceiro. Sim, porque as diferenças econômicas e sociais nada mais são do que reflexo da educação que se deu para seu povo. Um povo mais instruído é um povo com mais capacidade de exigir de seus governantes e de por si só tomar atitudes que beneficiem toda a sociedade. Um povo menos instruído é mais facilmente coagido, contenta-se muitas vezes com pouco e pensa mais nos próprios problemas do que no conjunto. E se a educação é a base de tudo, a cultura também está aí. Porque a cultura é o que aprimorará essa base. É o que ajudará a desenvolver o senso crítico. É o que ajudará as pessoas a se tornarem mais sensíveis. É de fato e sem medo de ser clichê, o alimento da alma.

Portanto quando vemos que em quase todo o país as pessoas não têm acesso a cultura (e bem sabemos que também não têm à educação), é de se preocupar. Principalmente porque quando a educação, que é controlada pelo estado, falha, a cultura produzida por membros dessa sociedade poderia vir para tentar amenizar essa falha. O problema é que isso não acontece. Os caminhos, principalmente financeiros, levam os artistas às capitais. Possivelmente Rio ou São Paulo. A volta quase nunca acontece. E isso faz com que grande parte de nossa população seja privada da cultura, a que deveria ter direito garantido.

Ouvimos falar de grupos de teatro e até mesmo cinemas itinerantes que rodam o Brasil levando as artes a quem não poderia ir até elas. Mas esses casos são muito poucos para um país tão grande e com tanta gente. E na verdade não deveriam nem ser necessários. A cultura não precisa ser itinerante. Ela precisa ser local, fixa, constante. E para que isso aconteça é preciso de apoio do estado e da sociedade. E bem sabemos que com o estado nunca pudemos contar muito, em qualquer época de nossa história. A meu ver cabe à sociedade tomar para si essa responsabilidade. Nós somos o poder e não o estado como grande parte da população é levada a crer. E o interesse de nos munirmos de cultura é todo nosso. É claro que isso deve partir daqueles que têm condições de financiar ou incentivar essa produção. Mas deve vir também dos artistas em querer criar onde nada nunca é criado. Mesmo que o desejo de estar em voga em Rio ou São Paulo seja grande é preciso perceber que não há espaço para todos nesse centro. E que muito melhor seria se houvessem muitos outros centros. Se ninguém tivesse que sair de suas cidades para poder produzir cultura.

O fato é que um grande projeto é preciso para levar a cultura para todo o país, da mesma forma que outros setores conseguiram esse sucesso como dito no começo do texto. É errado pensar (e acredite, muitos pensam) que as pessoas de São Paulo ou Rio são mais cultas, por exemplo. Que em outras cidades não há esse interesse. A verdade é que elas simplesmente não têm a oportunidade. E a cultura, como quase tudo na vida, é uma questão de hábito. E um bom hábito só é possível com uma boa educação.

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