Só um Minuto de Arte

A rapidez é uma característica da modernidade. E na maioria dos casos acaba sendo também um mal. Um mal porque faz com que, pra começar, quase tudo que não seja rápido seja descartado. As pessoas fazem cada vez mais coisas em cada vez menos tempo e acabam criando uma aversão a tudo aquilo que necessita de mais tempo para ser executado ou apreciado.

As artes sofrem muito com isso. Filmes ditos “lentos” têm dificuldade de serem vistos. Alguns dizem que “falta ritmo”. Ora, creio que ritmo não é sinônimo de rapidez. Os museus sofrem também. A não ser que seja uma exposição muito badalada e promovida dificilmente as pessoas usam seu tempo para esse fim. E mesmo que o façam, não costumam parar durante muito tempo diante de uma obra. O que parece valer mais é apenas o fato de poder dizer que foi à exposição.

Até mesmo a música, tão presente em nosso cotidiano, não é mais tratada como um acontecimento em si. Meu amigo Thiago Araújo uma vez escreveu sabiamente que a música, nos dias de hoje, funciona apenas como trilha sonora para alguma outra atividade. Ouvimos música enquanto navegamos na internet ou dirigimos um carro. Mas não mais paramos para simplesmente ouvi-la.

O teatro sofre tremendamente, como se poderia imaginar. Afinal, a própria concorrência artística possui mais velocidade, como o cinema, a TV, a música. Não é de se estranhar que hoje em dia eu ouça tanto das pessoas: “não gosto de teatro”. Mas é de se lamentar. E acredito que mesmo existindo vários fatores que afastam as pessoas do teatro, a velocidade moderna é uma das mais responsáveis. Afinal, até o começo do século XX pelo menos, o teatro era a mais popular forma de entretenimento. E justamente quando o mundo começou a aumentar sua velocidade de maneira geométrica, o tempo para a apreciação de atividades diminuiu. Inclusive o tempo do lazer. O tempo das artes.

E isso se reflete nas obras atuais. Pelo menos no Brasil, as peças que fazem mais bilheteria são aquelas que têm texto leve, simples e geralmente cômico. Nada de errado nessa descrição, pelo contrário. O problema é que junto a isso ocorre uma tremenda falta de qualidade. E se for falar de peças que exigem uma maior atenção do público, um maior envolvimento de raciocínio, daí estaremos falando de um tipo de teatro (e artes em geral) que encontra cada vez mais dificuldade de ser aceito.

O imediatismo é uma praga terrível, que nos deixa sempre na superfície e faz com que cada vez mais as pessoas não queiram se aprofundar. Em nada. Diversas vezes já ouvi de colegas, durantes discussões acerca de algum tema (discussões saudáveis, amigáveis): “não quero falar sobre isso, é muito complicado” ou “nossa, você pensa demais”. Para mim sentenças assustadoras, porque revelam que a velocidade moderna tornou-se o parâmetro da maioria da população.

Não sei apontar respostas para o problema apresentado. E acredito que para muitas pessoas isso nem seja um problema. Mas espero que você leitor reflita um pouco sobre esse tema fundamental apresentado de maneira ínfima nesse texto. Se você, mesmo inconscientemente, se vê muitas vezes sem paciência para apreciar algumas das artes citadas ou mesmo para atividades cotidianas, peço que faça um esforço para tentar desacelerar. Porque só se todos nós resolvermos fazer isso é que será possível voltar a uma época onde o que importava era dar tempo as coisas e não tirar o tempo de quase tudo.

Posso parecer um saudosista, mas acredite. Para quem faz e aprecia arte, esse trem bala que se tornou o tempo moderno vai acabar descarrilando.

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