Lata de Lixo é a Vovozinha!

Durante o período de ditadura militar sob o qual o Brasil viveu nas décadas de 60 e 80, falava-se em mais de quatrocentos textos de teatro retidos, ou melhor, proibidos e engavetados na sede do Departamento de Censura Federal. Oficialmente sabia a classe teatral que entre os textos proibidos estavam algumas obras primas, como “Calabar” de Chico Buarque e Rui Guerra e “Rasga Coração”, de Oduvaldo Viana Filho, esse último considerado por muitos teatrólogos e críticos ” e inclusive por esse humilde locutor aqui que vos fala - como a grande obra prima da dramaturgia nacional.

Muito bem : caiu o regime militar e acabou-se a censura, digo a censura estatal e ideológica porque a censura burocrática e financeira, ditada por mecanismos de mercado e interesses políticos, permanece aí até hoje, intacta, bela e faceira. O crítico Yan Michalski observa em seu livro “O Teatro Sob Pressão” que sempre que um regime autoritário assume o poder em qualquer sociedade e em qualquer período histórico, a primeira vítima é o teatro.

Os donos do poder proíbem indiscriminadamente textos e peças e costumam encarcerar, sem a menor cerimônia, dramaturgos e atores (Será que acreditam os tiranos que seja essa uma fórmula de aprisionar o pensamento criativo?)

A acusação, ou pretexto, gira sempre em torno da mesma ladainha : “tentativa de subverter a ordem estabelecida” e /ou, “atentar contra a moral vigente e os bons costumes”.

Michalski completa seu pensamento dizendo que essa intervenção do Estado é o maior elogio que se pode fazer ao teatro, pois reconhece implicitamente a sua importância social e cultural, sua condição de ” tribuna onde os problemas e as questões do ser humano são discutidos até às últimas conseqüências” , como queria Plínio Marcos.

Essencial, como queria Grotowisk, divertido para levar à reflexão, como propunha Brecht, poético e lancinante como os textos de Sheakespeare, dramático, militante, engraçado, trágico, farsesco, o teatro é um painel vivo que conta e registra a nossa atribulada aventura a bordo dessa bela pedra azul girando no espaço. Teatro, gente, é coisa séria!

Pois eu digo sem receio de errar que o teatro brasileiro vive hoje sob um clima de falso glamour e de vazio ideológico, existencial, espiritual e artístico absolutamente constrangedor.

Não. Não me refiro aos espetáculos que estão sendo atualmente encenados. Temos boas peças em cartaz e uma safra de novos diretores, atores e dramaturgos tremendamente promissora (Falo da praça aqui de São Paulo, minha cidade. Mas creio, pelas informações que obtenho, que a cena teatral esteja mais ou menos semelhante em outras cidades).

Estou me referindo ao “fazer teatral”, ao meio.

O palco transformou-se em passarela (o grande temor do tio Stanislavski, lembram?) de “celebridades”, socialites, bigues bróders, bailarinas, modelos, animadores de auditório, peladas da pleibói, ricos e ricas entediados, alpinistas sociais, anabolizados e siliconadas, enfim, uma fauna sedentária, desocupada, cafajeste e sem ter o que dizer e pra quem dizer.

Sujeito(a) teve lá os seus quinze segundos regulamentares de fama. Gostou do negócio. O empresário fareja uma possibilidade de ganhar mais algum aproveitando os resquícios de exposição na mídia que ainda tem o fulano ou a fulana e resolve investir em sua “carreira” .
Dá pra se ouvir o diálogo de longe :

-Sabe música?
-Não.
-Sabe tocar um instrumento, tigresa de íris cor-de-mel ?
-Não.
-Sabe cantar?
-Não.
-Sabe escrever?
-Não.
-Tem algum talento para Artes Plásticas?
-Plástica? Já fiz três e tô pensando em fazer mais uma.
-Bom… Tá difícil… Só tem um jeito : vais fazer teatro.

Esse fenômeno não teria a menor importância se fosse um fato isolado. Mas não é. A mídia, com ênfase para a televisão, é usina prodigiosa na produção de modismos, de trejeitos, de mitos fugazes e descartáveis. Bem, em algum lugar os restos dessa montanha de lixo cultural tem que ser depositados.
E o teatro, à custa de sua própria degradação, vai tornando-se o receptáculo ideal desse dejeto televisivo ou midiático.

Mais horrorizado fico quando percebo uma quase completa indiferença da classe teatral, das associações da classe e principalmente do sindicato da categoria, frente à esse quadro de degradação da profissão, do ofício teatral e do próprio Teatro.
Exagero? Paranóia? Teoria da conspiração? Sim, é possível, por que não? Mas uma breve passada de olhos pelas páginas dos cadernos de cultura da chamada grande imprensa, pode oferecer um panorama bastante emblemático do que foi acima exposto. O zelo pela integridade do teatro, pela sua função social é um exercício que nasceu junto com o próprio teatro. Uma espécie de defesa orgânica contra vírus e bactérias nocivas ao teatro.
A propósito de vírus e de bactérias, Antonin Artaud, à sua maneira singular, destacava essa preocupação no seu manifesto “O Teatro e a Peste” dizendo que não lhe parecia tanto que a defesa das Artes Cênicas fosse questão de “defender uma cultura cuja existência nunca salvou alguém de ter fome, mas extrair daquilo que se chama cultura idéias cuja força viva seja idêntica à da fome” (”O Teatro e seu Duplo” , editora Max Limonad).

Quem conhece, mesmo que superficialmente as idéias do autor de ” Les Cenci” sabe que ele não estava referindo-se à fome de projeção pessoal ou de fama instantânea. Muito, muitíssimo, pelo contrário.
Evoé!

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