Para Ser um Ator Global, Teatral ou Universal

Lima Duarte, Mateus Natchergale, Antonio Caloni, Raul Cortez, Marco Nanini, Fernanda Montenegro, Cássia Kiss, Marisa Orth, Paulo Autran, Antonio Fagundes, Flávio Migliaccio, Paulo José, Rosi Campos, Othon Bastos, Regina Duarte, Marilia Pera, Stênio Garcia, Carlos Vereza,Yoná Magalhães, Marcos Caruso, Paulo Beti, Antonio Petrin…

A lista é extensa. Eu poderia ainda citar mais algumas dezenas, não fosse a preguiça de ficar aqui catando milho no teclado do PC nessa sexta feira ensolarada da Paulicéia, onde os dias ensolarados são raros.

Atores e Atrizes de primeiro time. Modestamente fui colega de curso de alguns e com outros tive a honra de estar em cena.

O que toda essa gente aí citada tem em comum? Tem que todos trabalham, trabalharam e irão trabalhar em novelas de tv.

"Novelas de tv", não! O que que é isso!!? Sejamos claros e objetivos : novelas da Rede Globo de televisão.

Claro que existe por trás desse elenco aí citado, um verdadeiro exército de canastrões e canastrãs inacreditáveis. De bunitinhos e bunitinhas sem sal, sem talento, sem pé nem cabeça.

Estão lá pra vender sabonete, perfume, roupas, cremes, carros, penicos, papel higiênico, ração de cachorro e toda sorte de bugigangas imagináveis. Faz parte. Ou melhor : é a parte principal da novela : o merchandising. A novela foi criada com essa primordial intenção, a de vender bugigangas. Pragmáticos históricamente, os americanos chamam as novelas de tv de soap-opera. Mais que um nome, uma definção precisa.

A história? O enrêdo?  Tanto faz que seja idiota, raso, primário, inconsistente, banal, infantilóide e ridiculamente resolvido com os casamentos entre mocinhos e mocinhas e a mortes dos inefáveis vilões. Alguns vilões sobrevivem ao final, mas são exemplarmente castigados por suas maldades e infâmias. Alguns subitamente tornam-se bonzinhos. O velho e funcional jogo maniqueísta do bem contra o mal. E com o triunfo do primeiro no último round. Quando termina uma novela a impressão que fica é a de que a vida estacionou num paraíso perene de bondades e felicidade. Fica a sençação de que a dor, o sofrimento, as angústias e a morte foram banidos da aventura humana dando lugar à uma espécie de Nirvana esquizofrênico de bem-estar e felicidade.

Aqui  um breve parênteses :

Já esbravejei aqui no Oficina de Teatro contra a ocupação indevida do nosso mercado de trabalho por gente que pouco ou nada tem a ver com a profissão de ator. E, enquanto o Chris permitir, vou continuar esbravejando. E todo profissional tem a obrigação de lutar pela preservação do seu mercado de trabalho. E, até que me convençam do contrário, vou continuar afirmando que se o teatro for contar apenas com as benesses governamentais vai viver à míngua.

Governo nenhum no Brasil em tempo algum jamais preocupou-se com a saúde, com a miséria da população, com  a educação e com a criminosa concentração de renda que nos faz campeões mundiais da
injustiça social. Resumo dessa minha tergiversação operística-barroca : se o "governo" (sic) não se ocupa do colossal tisunami miserável que varre o país, vai se ocupar com o teatro sabe quando? Acertou : nunca!

Fecha breve perênteses e voltamos à vaca fria das novelas.

Se um dia a Rede Globo de Televisão o convidar para atuar numa de suas novelas, faça-o sem culpas. Cumpra sua obrigação profissional : decore os textos, empenhe-se de corpo e alma na construção de seu personagem, utilize seus talentos e sua técnica em prol da realização de um trabalho consistente e digno de um verdadeiro ator, de um profissional competente. E cobre por isso, pois trata-se de sua profissão, de seu ganha-pão, de seu meio de vida. (Amigo meu, um belíssimo ator, vai participar da tele-novela "América". Perguntou-me o que eu achava. Disse-lhe exatamente o que está aí acima)

O elenco que citei no primeiro parágrafo dessas mal traçadas é exemplar, creio. São profissionais tarimbados e tem sensibilidade e talento suficiente para emprestar qualidade à qualquer espetáculo televisivo ou teatral. Nada mais atrozmente ridículo que um ator, iniciante ou não, torça o nariz para um trabalho que um Paulo Autram ou uma Fernanda Montenegro exercem com o empenho que a profissão e os deuses do teatro exigem.

O fato de pensar a profissão de ator como algo que transcende aos comuns mortais sempre me soou como uma rematada burrice. Sim, somos todos nós profundamente apaixonados pelo nosso ofício. Mais até : fazemos dele - o ofício - o nosso mote de vida. E no fundo acredito que se assim não o for, não tem a menor graça. Mas não somos "diferentes". Não somos especiais. Não estamos um ponto acima dos demais mortais. Nem nós, nem os músicos, nem os escritores e nem artista nenhum. Quem leu o Mestre Stanislawiski com o olhar da humildade e no intuito de adquirir conhecimento, sabe que ele pensava assim.

"Áh… mas então não devo recusar nem um trabalho que me agride moralmente, que eu discorde  ideológicamente, que eu considere estética e artísticamente uma porcaria?" Como dizia Plínio Marcos, "sua cabeça é o seu guia."

Confia em sua capacidade de discernimento, em sua sensibilidade, em sua inteligência, em suas antenas de artista  e bom trabalho, companheiro(a).

Ou melhor : Merda!!

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