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- Quer Ser Ator, né, Nego? PDF Print E-mail
Julio Carrara
Escrito por Julio Carrara   
11/08/2008 - 18:01

Essa pergunta era repetida inúmeras vezes por Myrian Muniz, com aquela voz rouca inconfundível, direcionando o seu olhar duvidoso para aqueles jovens deslumbrados que almejavam ser atores. Não tive nenhuma dúvida em usar essa pergunta como título do meu artigo, para também, homenagear essa artista excepcional, falecida em 2004.

Desde que me conheço por gente, sempre fui apaixonado por teatro. Reunia as crianças da rua na minha casa, prendia um lençol no varal para fazer de rotunda (sem saber o que era isso), pegava roupas velhas da minha mãe para as meninas usarem de figurino e improvisava as cenas. E “ai” daquele que não fizesse certo!!! Era chamado de burro e estava fora da brincadeira! Alguns iam chorando para casa. Estou rindo só de lembrar dessa situação. Crianças são sinceras e até cruéis. Espero não ter traumatizado nenhuma delas.

De brincadeira de criança, escolhi o teatro como profissão. Isso aos 11 anos de idade. Abandonei meu curso de inglês, minhas aulas de piano, e só concluí os cursos de datilografia – que hoje não servem mais para nada – e informática para procurar um curso de teatro. Recebi apoio, pois minha família achava que aquilo era coisa passageira, mas quando decidi abandonar o Curso Técnico de Processamento de Dados para voltar ao Ensino Médio Regular, pois meu objetivo era cursar uma Faculdade de Artes Cênicas, quase matei todo mundo do coração e de desgosto.

Eu não sei o que minha família queria... Que eu fizesse Medicina, Engenharia, Direito, que fosse Dr. em alguma coisa? Bom... mesmo sem apoio (exceto da minha mãe, que viu que não tinha mais jeito), fui cursar a Faculdade e três anos mais tarde estava com o diploma de licenciatura em Educação Artística com habilitação em Artes Cênicas na mão. Estava feliz, muito feliz.

Hoje fico pensando se optasse por outra profissão. Como ator, dramaturgo, diretor e arte-educador, nunca matei ninguém – exceto nos meus textos. Agora se eu fosse médico ou engenheiro, quantas pessoas eu não iria matar numa sala de cirurgia ou no desabamento de um prédio mal projetado por mim?

Plínio Marcos escreveu num artigo: “Ser ator é mais uma condenação do que uma dádiva.” E é verdade. Estamos condenados a isso. Eu não sei fazer outra coisa senão respirar teatro, comer teatro, beber teatro... É isso que me realiza, que me dá prazer...

Fico revoltadíssimo quando vejo alguns pais traçando a carreira profissional dos filhos. Tenho uma amiga – que não convém citar o nome – apaixonada por teatro. Sua mãe obrigou-a a buscar uma outra profissão. Mesmo contra sua vontade, ela cursou 4 ou 5 anos de Odontologia. Na colação de grau, recebeu o diploma e ali mesmo, entregou-o para a mãe. Não era um diploma que sua progenitora queria? Muito bem. Essa minha amiga não estava formada em Artes Cênicas, mas em Odontologia. Depois de concluir o curso, ela voltou a fazer teatro e está muito feliz. Só não me pergunte quais foram os estragos que ela fez nas bocas dos pacientes, que não saberei responder.

Quando Myrian Muniz perguntava:

- Quer ser ator, né, nego????

...dirigindo-se a esses jovens, com uma pausa dramática, com aquele olhar que se assemelhava com o da Esfinge ao lançar o enigma para Édipo, entendo o que ela queria dizer com isso. Será que esses jovens estavam preparados para assumir tamanha responsabilidade?

Para mim seria tão mais fácil fazer parte de uma família de artistas, pois assim entenderiam o que se passa. Mas não. Sou a ovelha negra da família, como a música do Raul Seixas. Venho de uma família tradicional, que trabalha em empregos convencionais, das 7 às 18 horas e que tem folga aos domingos e aos sábados só trabalham meio período.

Já fui chamado de vagabundo inúmeras vezes. Vagabundos não trabalham aos sábados e domingos, vagabundos não passam a madrugada toda acordados escrevendo ou decorando textos, vagabundos não lêem, não pesquisam, não têm interesse pelas coisas que acontecem à sua volta, vagabundos não folgam – quando folgam – às segundas-feiras. Isso é ser vagabundo? E o que é ser trabalhador, então? É pegar numa enxada? Vagabundo, eu?

Quando refiro à minha pessoa, também quero me referir aos leitores, que, em maior ou menor grau, passam por essa problemática. O artista é, ao mesmo tempo, a Cigarra (que passa todo o verão cantando e não fazendo porra nenhuma e no inverno morre de frio), e a Formiga (que passa o verão colhendo alimentos para desfruta-los no inverno), da fábula. As pessoas vêm apenas o lado Cigarra dos artistas, no momento em que eles estão no palco, mas o lado da Formiga, que ocorre durante o processo de ensaios, ninguém vê, por isso é fácil julgar. E quanto à estabilidade financeira?

- Será que para fazer teatro, eu preciso ter um outro emprego que me dê estabilidade?

Mas essa é uma outra questão que fica para o próximo artigo.

Comentarios (12)add comment

Thiago Tavares said:

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Não têm jeito! quando n´s somos condenados a seguir a arte não existe família que nos impeça! podem nos chamar de vagabundos! somos vagabundo? se somos vagabundos somos vagabundos felizes que fazem da nossa própria vida um instrumento para se comunicar.
 
18/08/2008 | url
Votos: +1

Fagner Lessa said:

0
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Quando eu estava lendo o seu artigo e vc citou a sua amiga como exemplo, parece que vc estava falando de mim...sou um rapaz que daria tudo pra viver de teatro, mas minha mãe acha que isso não é profissão e então acabei entrando no curso de Farmacia e Bioquimica e nesse exato momento estou na faculdade pesquisando sobre teatro...já estou no 4° ano de Farmacia e não vejo a hora de entregar esse diploma para ela(minha mãe). O engraçado é que minha familia acha que isso "essa coisa de teatro", como eles falam, é passageiro e que qndo eu me formar isso vai passar. Já me mudei de estado 3 vezes e já fiz de tudo para largar o curso de Farmacia e fazer teatro...o problema é que ainda dependo financeiramente deles, mesmo tendo o meu emprego, pois tem essa p...de curso pra pagar... eu queria ter a sua coragem de largar tudo por um sonho que vc deseja.
 
18/08/2008
Votos: +1

Leide Maria said:

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Adoro escrever esquetes e nunca partir realmente para o teatro. Já passei por quase todas as fases do estudo e finalmente após tantos "estabilizantes sociais" partir para o que realmente adoro.Eu sei que não serei objeto de estudo, pois não terei o meu processo evolutivo (15,20,30,40 anos). Mas o meu professor no meu primeiro dia foi logo dizendo: Você não entrou tarde, o momento é agora, e estavamos esperando por você.Eu não pude largar tudo para seguir meu sonho; só não esqueci de sonhar.
 
28/08/2008
Votos: +0

Alisson Ribeiro Da Costa said:

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oi vcs e muito legal quando estou sor so pesso na minha fama da qui um dia conto com a ajuda de vc obrigado
 
30/03/2009 | url
Votos: -1

Antonio Rovere (Tonhaum) said:

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Desde pequeno sou apaixonado pelo teatro, minha mãe fala que eu ficava vidrado e quando acabava eu saia correndo prair abraçar os atores, hoje estou largando minha cidade porque aqui é tudo muito voltado ao dinheiro, procuro uma escola de teatro e eles ja falam em querer ser o melhor para interpretar na tv... e eu quero é o teatro. Não tenho dinheiro para uma faculdade, e sim vou ter o aluguel de minha casinha q vai me ajudar no RJ, vou procurar qualquer emprego de algumas horas para complementar minha renda e conseguir cursos gratuitos ou baratos más com pessoas que entendam esse sentimento que tenho desde moleque. de inicio vou procurar ficar em um camping ou em algo do tipo. Se puder me mandar dicas ficaria muito grato. Grande Abraço. Antonio
 
03/05/2009 | url
Votos: +0

Antonio Rovere (Tonhaum) said:

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CLOAKING
 
03/05/2009 | url
Votos: +0

Denis said:

0
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amo teatro tambeim, e gostei muito do se artigo, só qe tenho um problema, na inha idade não tenho muitas oportunidades, moro em campo grande -ms .. mais queim sabe um ia eu naum consiga viver essa vida qe e tanto quero!
 
23/09/2009
Votos: +0

Renato Costa said:

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Meus parabéns...palavras sábias as suas!
 
14/11/2009
Votos: +0

Emerson da Silva Santos said:

Kbça
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Essa é a mesma pergunta que ultimamente passa pela minha cabeça.
Sou fanatico por Raul e aprendi com ele fazer apenas as coisas que gosto.Isso esta me fazendo correr atras de uma formação em geografia...mas e o Teatro?
Tenho um amigo que ama o teatro, mas faz esta terminando faculade de história (não porque outros querem, mas por desejo dele mesmo).Mas e o Teatro?
Confesso que meu conhecimento sobre a area é quase nenhum devido ao pouco tempo que participo do mundo teatral e mesmo com a pouca experiencia, já foram tantos os problemas com descaso de um publico ignorante, falta de apoio familiar e do poder publico, esse ultimo só presta pra foder com a gente, que já começo a me perguntar se vale largar tudo e me dedicar apenas ao teatro.Uma decisão extremamente dificil devido a sociedade capitalista que temos que enfrentar todos os dias...
 
30/03/2010
Votos: +0

Lau.Bark said:

0
...
Estou colecionando estes artigos e vou apresenta-los para os meus alunos de teatro. Certamente teremos grandes discussões.
Beirando "tropa de elite", tem muita gente que não aguenta o teatro, não desiste e aumenta o corpo dos "fracos" atores que persistem em ficar sentados nos degraus de um teatro esperando um diretor o resgatar do limo.
Parabéns a todos.
 
16/05/2010
Votos: +0

Lau.Bark said:

0
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Tem vagabundo que é vagabundo mesmo! Se diz ator e vive de "projetos" que nunca saem do papel. Quando algum sai, sai uma "M@&%*"

Assim como em todas as áreas temos bons e maus "profissionais"!
E até termos um minimo de estabilidade, sim, é necessário ter uma atividade paralela que nos sustente. Comida, roupa, luz e aluguem não caem do céu, só água!
 
16/05/2010
Votos: +2

ligia de paula said:

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Ah! que saudades da Myrian.De 15 setembro de 1975. Quando ela me convidou prá fazer "Falso Brilhante", já que eu era aluna da 1ª turma da Escola Macunaíma. Um mes antes de falecer me convidou para um novo espetáculo, ela disse: "prá ganhar muito bem", não deu tempo! Mas consegui fazer uma homenagem, lá no SESI Sorocaba.Ela gostou.
 
01/09/2010
Votos: +0

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Paulo SacaldassyPaulo Sacaldassy é dramaturgo, roteirista, poeta e letrista. Com artigos construtivos e úteis, escreve sobre teatro em geral e publica todo domingo no Oficina. Leia

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