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Sejamos Contemporâneos PDF Print E-mail
Julio Carrara
Escrito por Julio Carrara   
01/10/2008 - 03:09
Tô cansado de ficar dando murro em ponta de faca. Cansado de me estressar com coisas insignificantes. Cansado de ficar indignado com os meios de comunicação e com o meio artístico. Resolvi dar uma trégua para isso, afinal de contas, tá tudo muito bom.
Pra que vamos perder tempo lendo Shakespeare, Kerouac, Vinícius de Moraes, Fernando Pessoa, Machado de Assis?... Tudo isso é bobagem. São escritores insignificantes e que não têm nada a dizer. Vamos ler Caras, Contigo, Minha Novela, os livros do Paulo Coelho... Vamos nos deliciar no banheiro com os relatos eróticos da Bruna Surfistinha. É muito mais legal e útil.

Por que ouvir Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim?... Esses não entendem nada e suas músicas não passam de pura punhetagem. É muito mais divertido ouvir a Tati Quebra-Barraco (aliás, alguém sabe o seu paradeiro?) cantando: “eu vou bater uma siririca e gozar na tua cara...”, montar na éguinha pocotó junto com a Lacraia, ver o MC Creu (nem sei se é isso) em sua performance brilhante nas cinco velocidades do créu, créu, créu, créu, créu, créu... É a música mais criativa que já ouvi. De verdade. Tem muita profundidade essa letra, digna de um Grammy.

Vou perder meu tempo assistindo a programas de TV como o Café Filosófico, Nossa Língua, Tecendo o Saber, que entram no ar altas horas da madrugada, se posso assistir Casos de Família, Márcia Goldzsmit, Superpop, Big Brother Brasil?

Sou fanático por novela. Ainda bem que Janete Clair, Bráulio Pedroso, Dias Gomes, Ivani Ribeiro, Cassiano Gabus Mendes já morreram e não nos incomodam mais com aquelas merdas que escreviam. As novelas de agora são muito mais criativas; o primeiro bloco da novela das seis é igual ao segundo bloco da novela das sete e igual ao terceiro bloco da novela das nove, e todas têm mais de 200 capítulos. Posso deixar de ver 50 capítulos que quando voltar a assistir, vou saber tudo o que aconteceu. Olha que genialidade dos roteiristas?
Genialidade maior que essa, é ver determinados personagens acendendo o fogão com os fósforos da Fiat Lux, lavando louça com detergente Ypê, virando revendedores da Avon, ou induzindo outros personagens a fazerem um 21. Isso não é só merschandising, não. É a teledramaturgia contemporânea. A TV não é um comércio? Pois então. Tem que vender seus produtos. Não concordam?

E no teatro então? Eu quero ir pra dar risada, porque de Tragédia basta a minha vida. Chega de Senhora dos Afogados (nas versões de Antunes Filho, Zé Henrique de Paula e a futura montagem do Zé Celso), Vestido de Noiva, 17x Nelson – porque insistem em montar as
peças dele?... Chega de Otelo, Hamlet, A Megera Domada – Credo! Quantas montagens de Shakespeare. Vamos ver coisas mais interessantes. Tem muita peça boa em cartaz. Só olhar nos guias e escolher...

Ser contemporâneo é aceitar, sem reclamar, aquilo que te oferecem, seja na literatura, na música, na televisão, no teatro, na política... Ser contemporâneo é chegar no 3º ano do Ensino Médio e não saber escrever o seu próprio nome... Ser contemporâneo é ver o mundo desabando na sua cabeça e não fazer porra nenhuma. Ser contemporâneo é deixar o seu lado HUMANO para se transformar numa MÁQUINA que não pode verter lágrimas para não enferrujar. Ser contemporâneo é se deparar com alguém tendo um enfarto na rua e sair correndo sem prestar socorro. Ser contemporâneo é se enfiar na política, roubar dinheiro público e se safar da prisão enquanto um pobre coitado, morto de fome, rouba uma margarina no supermercado e recebe a pena máxima. Ser contemporâneo é jogar uma criança do 6º andar. Ser contemporâneo é obrigar uma criança de 7 anos a chupar seu pau, gravar essa cena e depois jogá-la na internet. Ser contemporâneo é esquartejar os pais, os irmãos e ir ao cinema metralhar a platéia. Ser contemporâneo é acordar às 4 da manhã, pegar trem, metrô, lotação para chegar no trabalho às 8, ralar o dia todo e chegar em casa às 22 horas para no dia seguinte começar tudo de novo e receber, por todo esse sacrifício, um salário de merda.

Ah!!!! Como é triste se sentir deslocado... Como é triste ter opinião contrária da maioria das pessoas. Como é triste sentir-se como um beija-flor que, sozinho, tenta apagar um incêndio... Como é triste ser um apocalíptico e não um integrado. Como é triste ir contra um sistema. Como é triste saber que os grandes heróis da Humanidade foram mortos. E pior: como é triste saber que nasci na época errada.
Comentarios (18)add comment

Andi said:

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Nossa, essa aí sou eu também...exatamente isso... perfeito!
 
01/10/2008
Votos: +1

Araceli Marrôa said:

Araceli Kene
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Esse é o mundo contemporâneo essa mesquinharia humana
 
01/10/2008
Votos: +0

Paulo Sacaldassy said:

01/10/2008
Votos: +0

Erico Baymma said:

Erico Baymma
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Julio, eu me sinto assim desde a década de 80 quando a "revelação pop" da indústria cultural esteve em seu ápice de produção de coisas "mais acessíveis". Gostei do seu texto, mas acredito que ele esteja ligado demais ao que vem da indústria - que é algo que já está saturado, ou em ponto de saturação. Ninguém aguenta mais isso. O que se poderia dizer a favor de uma produtividade "positiva"? Abraço
 
02/10/2008
Votos: +1

samanta mezzomo said:

0
...
poxa!... realmente ser contemporâneo nos faz pensar em tudo isto e tudo, mais.... mas vc esqueceu o que é ser professor contempoâneo... que se mata pra fazer uns alunos aprenderem,fica frustrado quando fala de adorno, subjetividade, cosmos, e os alunos perguntam "é uma site novo professora ou uma ferramenta da internet",chega em casa com vontade de matar o governo... a qd chega no final do mês o salário é aquela mereca..e ainda perder o emprego no final de cada ano......
poxa... isto é ser contemporâneo?
 
03/10/2008
Votos: +2

Fagner Lessa said:

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Parabens! Como vc tem força para gritar nesse mundo conturbado!! Genial esse seu texto!
 
04/10/2008
Votos: +0

Dorival said:

0
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Isso aí, Carrara.
Mas o que me deixa de cabeça quente é: e daí, Zé, que é que vamos fazer?
Podíamos comoeçar uma reação, mas deveríamos faze-la atualizada...
Você topa, discutir isso?
Nós não vamos competir com o PODER que está instalado nos sofás... mas podíamos pelo mesnos iniciar uma discussão, que seja sadia, que seja sonho, mas já é uma reação.
 
07/10/2008
Votos: +0

Beto Costa said:

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Ainda bem que fizemos nossas escolhas.Vamos continuar batalhando para que mais pessoas tem acesso ao Teatro
 
08/10/2008
Votos: +0

Otavio said:

0
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Em que época você gostaria de ter nascido?
 
09/10/2008
Votos: +0

Diogo Barbosa said:

0
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Engraçado... aqui no Recife existe um grupo de teatro que monta peças de humor bem escrachado e de fácil apreenção, é a Trupe do Barulho. Eles um público grande e bastante fiel. Agora decidiram mudar um pouco o repertório e montaram Apareceu a Margarida de Roberto Athayde, não sei dizer exatamente se o público esta gostando mas sei que está lotando como lota em todas as peças deles. Acho que a grande dificuldade do teatro e de outras expressões artísticas é o "atraente" com o "qualitativo". Sei que como diz Grotowski, não devemos baixar a qualidade do que é produzido ao repertório da maioria das pessoas, pode até parecer preconceituoso, mas que é resumido. Por outro lado, não acho interessante fazer teatro pra seis pessoas ao redor de uma mesa. Na Grecia e Inglaterra de Shakespeare, a massa ainda via teatro. Acho que nos mesmos fomos aos poucos dispesando nosso público. To consado de ver só gente de teatro em teatro.
 
10/10/2008
Votos: +0

Rafael Adriano said:

0
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Júlio, muito interessante seu texto. Mas e aí? O que fazer? Lendo seu artigo sinto uma grande angústica existencial. Na verdade digo isso para muitos e muitos jovens que se deixam levar acriticamente por essa onda pós-moderna. Mas e agora, José? O que fazer? Até mais.
 
10/10/2008
Votos: +0

SANDRA NUNES said:

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Maravilhoso artigo, e quanta futilidade no mundo comtemporaneo? Daí me veem a cabeça tantas imagens de degradação ambiental que os animais(homem )cometem. Coisas que parecem simples e inofensivas mas que estão presentes no dia a dia. Tudo isso reflete o amanhã. E a sensação que tenho, que a falta, não é de informação não! Quanta insensibilidade!!! Abraço
 
11/10/2008
Votos: +0

Paulo Rocha said:

0
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Sinceramente, me enche o saco esse mesmo papinho de sempre.
se você acha realmente ruim tudo o que existe atualmente ou se mata ou vai montar os textos que você acha que vale a pena montar...
Há sim muita futilidade no mundo, como sempre houve mas é sempre bom reclamar e escrever textos que se vangloriem por ser diferente.
Enfim, muita choradeira pouca práxis!
 
13/10/2008 | url
Votos: +0

Ana Maria Sierra Marques said:

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Que comentário realista!!!!Minha nossa... Adorei!!!
 
27/10/2008
Votos: +0

Gabriela Lima said:

Gabriela Lima
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Olá Júlio, li o teu artigo "visceral" e, até certo ponto, sua ironia coube inteiramente a minha forma de pensar. A tal "contemporaneidade" parece ser hoje, uma boa desculpa pra justificar os escorregões cometidos na arte. Pois o que chega a mim, é que a preguiça de ler, estudar, enfim... de se preparar para a apresentação de um produto final, se faz coerente sob a veste "contemporânea". Isso, que já nem cabe chamar de tendência, assumiu um papel tão representativo na arte que já disseminou o seguinte mandamento: "O importante é PRODUZIR, de qualquer forma, irmão, não temas, jogue sua porcaria pra fora, que dentro da lei contemporânea tu serás, não apenas perdoado, mas também tido como genial!" Bem, dentro desse contexto, realmente não faz sentido forçar a mente para assimilar Shakespeare.
 
05/11/2008
Votos: +0

Taciane Maria Camargo de Freitas said:

Taciane Maria Camargo de Freitas
...
SimplesMENTE, o TUDO no meio do nada que é essa tal de sociedade contemporânea, que se auto intitula tão culta ....mas que esconde em suas entranhas sua mesquinhes...sua arrogancia de nada saber...
 
22/03/2009
Votos: +0

Danilo Cardoso said:

0
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Ótimo desabafo, se estimula quem quiser. Quem tem esperança.. eu tenho!
 
05/04/2009
Votos: +0

Jax Mara de Jesus Queiroz said:

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Ainda não havia lido um conceito ideal para contemporâneidade, mas ja pensava desta forma, esse é o retrato de nossa sociedade, hipocrita, em que acreditar entaõ? nossos sonhos se acabam a cada momento, pespectivas de que?, se hoje ja estamos vivendo isso e futuramente como será,? percebo que estamos vivendo uma literatura contrária ,onde a falta de "conhecimento" ou o conhecimento mecânico é aplaudida,
 
13/02/2011
Votos: +0

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Paulo SacaldassyPaulo Sacaldassy é dramaturgo, roteirista, poeta e letrista. Com artigos construtivos e úteis, escreve sobre teatro em geral e publica todo domingo no Oficina. Leia

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