| A arte de expor o corpo nu |
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| Escrito por Paulo Sacaldassy |
| 30/05/2010 - 13:45 |
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Ah, a beleza! A beleza é coisa dos deuses e de deuses, pobres mortais não tem esse poder. E mais e mais beldades desfilam suas ignorantes belezas diante de nossa visão embasbacada pelo encantamento que elas causam. E não tem nada mais artístico do que expor o próprio corpo nu. Ah, como é bom quando se é um escolhido dos deuses!
As portas estão sempre abertas e tudo se ofusca diante da beleza! Um corpo que exala a arte da beleza vira celebridade, ganha papel em novela no horário nobre, desfila suntuosamente a sua importância, diante do público, enfeitiçado. Ah, a beleza! Como dá trabalho!
Azar dos artistas que são feios e carrancudos, que precisam debruçar os seus saberes entre livros e poesias, entre “Shakespeare” e “Eurípides”. Passarem noites e dias em suados exercícios de interpretação e mais dias e noites buscando um humilde lugar no Olimpo, pensado apenas em mostrar a sua singela arte de interpretar. Ah, se eles fossem belos!
Não perderiam tempo com tanta banalidade, livros e clássicos são apenas para os feios. Se fossem belos, precisariam apenas debruçar seus corpos torneados em pranchas de abdominais e suarem em exercícios de supinos. Passariam noites e dias em salões de estética e estampariam seus rostos em revistas de celebridades. Ah, como faz falta a beleza!
Sem ela tudo fica mais difícil, não se tem quase chance num já concorrido mundo dos mortais. Por mais que o encantamento do saber comova, o encantamento da beleza ofusca e faz tornar entediante, o Ato de ouvir declamações poéticas e discursos filosóficos. Para quê, se temos a arte da beleza de um corpo nu exposto em páginas de revistas? Ah, a beleza é fundamental, como já dissera o poeta.
E o que seria do poeta sem a beleza? Apenas versos secos e cinzentos, seria apenas natureza morta em telas esbranquiçadas, apenas melodias monocórdias de um zoar irritante. Pena que a beleza que outrora era apenas musa da criação, ganhou ares de artista e passou a achar que seu corpo tornou-se a própria arte, a ponto de expô-lo nu em troca de se tornar celebridade. Ah, a beleza! Como ela cega!
Sorte ter nascido poeta, pois assim consigo enxergar a beleza do jeito que ela realmente é. Apenas algo que encanta os olhos, que inspira a alma e faz os dias ficarem bem mais bonitos.
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Paulo Sacaldassy é dramaturgo, roteirista, poeta e letrista. Com artigos construtivos e úteis, escreve sobre teatro em geral e publica todo domingo no Oficina. Leia
Julio Carrara é Dramaturgo, ator e diretor. Publica artigos apimentados sobre teatro e a vida artística em geral, dentro e fora dos palcos, toda sexta no Oficina. Leia
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