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Escrito por Tatiana Cavalcanti
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11/08/2006 - 00:00 |
No profile do Orkut de um ex-aluno meu:
"Tenho medo de ser pobre a vida inteira caso me torne um ator profissional".
Merecedor de reflexão esse menino chamado Henrique. Henrique é um cara de talento, um cara que tem a arte na veia. Em nosso primeiro ensaio juntos, notei que ele tinha jeito. Henrique é um desses pré-adultos contestadores, subversivos por natureza e questionadores. Eu pedia pra ele mudar o tom de uma cena e o tom vinha mudado 5 minutos depois. Henrique me ouvia falar com a pequena propriedade que tenho com os olhos brilhando e o corpo louco pra entrar naquela que seria só mais uma de suas viagens dentro do Universo Teatral. Henrique está estudando enlouquecidamente para o vestibular de Artes Cênicas.
Tenho certeza absouta que ele entra. Só não sei se cursa. Ele e os pais dele têm muito medo do futuro de um artista num país como o Brasil. Eles têm receio de ter criado com amor um moleque que, por opção e ingratidão da cultura pode nunca conseguir conforto e estabilidade. Um menino que pode viver o resto da vida com a grana miserável que nosso teatro brasileiro paga.
"Mas eu gosto de teatro… é que com o dinheiro que eu vou no teatro, eu pago minha conta de telefone que vem baixa, né Tati.. pensa bem".. Hurum, estou pensando. Aliás, eu penso muito.
De um lado temos gente que trabalha e batalha horrores pra colocar uma peça em pé, pagar a mídia (quando existe esta possibilidade), rodar a gráfica, pagar a direção, a produção, e ainda fazer um coquetelzinho de estréia. Saindo deste dia da estréia, ainda temos que pensar em toda temporada e na comissão que os teatros levam. O que sobra? Pois é. Não sobra. Nunca sobra. (Vamos ler este texto contando com exceções como Fagundes, Fernanda Montenegro e os nossos conhecidos fenômenos brasileiros). Ainda desse lado temos empresas conhecidas que patrocinam. Mas patrocinam grandes nomes. Os pequenos nomes nunca têm vez. E quando tem a grana é curta demais pra temporada que se pretende fazer.
De outro lado temos a população que não tem acesso a cultura. Pessoas que, se compram ingresso pro teatro deixam de comprar um livro da escola pro filho. Pessoas que até têm vontade de conhecer o Universo da arte mas que não têm a menor possibilidade disso. E que portanto, escolhem claro, pela sua prioridade.
Faltam possibilidades. Falta cultura. Falta cuidado com nossas artes já tão esmagadas. Falta ingresso barato. Falta incentivo pros produtores. Falta dinheiro pro teatro, pro cinema (esse mesmo assim está melhor já!!!). Faltam empresas que entendam que desviando seu dinheiro pra arte, elas abatem do IR. Falta educação, gente.
E aí eu pergunto: o Henrique está errado no medo de "ser pobre a vida inteira caso torne-se um ator profissional"?
Que desânimo com nossos governos. Que desânimo em ver meus alunos se debatendo numa agonia que eu não sei se vai acabar. Que desânimo com o Brasil. PS: Isso não se trata de uma reflexão ampla como ela deve ser.
Trata-se apenas do meu ex-aluno no mesmo conflito que eu tiva há 10 anos atrás. Somente isso.
CLOAKING
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