| Lata de Lixo é a Vovozinha! |
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| Escrito por Marco Farias |
| 11/08/2006 - 00:00 |
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Durante o período de ditadura militar sob o qual o Brasil viveu nas décadas de 60 e 80, falava-se em mais de quatrocentos textos de teatro retidos, ou melhor, proibidos e engavetados na sede do Departamento de Censura Federal. Oficialmente sabia a classe teatral que entre os textos proibidos estavam algumas obras primas, como “Calabar” de Chico Buarque e Rui Guerra e “Rasga Coração”, de Oduvaldo Viana Filho, esse último considerado por muitos teatrólogos e críticos ” e inclusive por esse humilde locutor aqui que vos fala - como a grande obra prima da Dramaturgia nacional. Muito bem : caiu o regime militar e acabou-se a censura, digo a censura estatal e ideológica porque a censura burocrática e financeira, ditada por mecanismos de mercado e interesses políticos, permanece aí até hoje, intacta, bela e faceira. O crítico Yan Michalski observa em seu livro “O Teatro Sob Pressão” que sempre que um regime autoritário assume o poder em qualquer sociedade e em qualquer período histórico, a primeira vítima é o teatro. Os donos do poder proíbem indiscriminadamente textos e peças e costumam encarcerar, sem a menor cerimônia, dramaturgos e atores (Será que acreditam os tiranos que seja essa uma fórmula de aprisionar o pensamento criativo?) A acusação, ou pretexto, gira sempre em torno da mesma ladainha : “tentativa de subverter a ordem estabelecida” e /ou, “atentar contra a moral vigente e os bons costumes”. Michalski completa seu pensamento dizendo que essa intervenção do Estado é o maior elogio que se pode fazer ao teatro, pois reconhece implicitamente a sua importância social e cultural, sua condição de ” tribuna onde os problemas e as questões do ser humano são discutidos até às últimas conseqüências” , como queria Plínio Marcos. Essencial, como queria Grotowisk, divertido para levar à reflexão, como propunha Brecht, poético e lancinante como os textos de Sheakespeare, dramático, militante, engraçado, trágico, farsesco, o teatro é um painel vivo que conta e registra a nossa atribulada aventura a bordo dessa bela pedra azul girando no espaço. Teatro, gente, é coisa séria! Pois eu digo sem receio de errar que o teatro brasileiro vive hoje sob um clima de falso glamour e de vazio ideológico, existencial, espiritual e artístico absolutamente constrangedor. Não. Não me refiro aos espetáculos que estão sendo atualmente encenados. Temos boas peças em cartaz e uma safra de novos diretores, atores e dramaturgos tremendamente promissora (Falo da praça aqui de São Paulo, minha cidade. Mas creio, pelas informações que obtenho, que a cena teatral esteja mais ou menos semelhante em outras cidades). Estou me referindo ao “fazer teatral”, ao meio. O palco transformou-se em passarela (o grande temor do tio Stanislavski, lembram?) de “celebridades”, socialites, bigues bróders, bailarinas, modelos, animadores de auditório, peladas da pleibói, ricos e ricas entediados, alpinistas sociais, anabolizados e siliconadas, enfim, uma fauna sedentária, desocupada, cafajeste e sem ter o que dizer e pra quem dizer. Sujeito(a) teve lá os seus quinze segundos regulamentares de fama. Gostou do negócio. O empresário fareja uma possibilidade de ganhar mais algum aproveitando os resquícios de exposição na mídia que ainda tem o fulano ou a fulana e resolve investir em sua “carreira” . -Sabe música? Esse fenômeno não teria a menor importância se fosse um fato isolado. Mas não é. A mídia, com ênfase para a televisão, é usina prodigiosa na produção de modismos, de trejeitos, de mitos fugazes e descartáveis. Bem, em algum lugar os restos dessa montanha de lixo cultural tem que ser depositados. Mais horrorizado fico quando percebo uma quase completa indiferença da classe teatral, das associações da classe e principalmente do sindicato da categoria, frente à esse quadro de degradação da profissão, do ofício teatral e do próprio Teatro.
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Paulo Sacaldassy é dramaturgo, roteirista, poeta e letrista. Com artigos construtivos e úteis, escreve sobre teatro em geral e publica todo domingo no Oficina. Leia
Julio Carrara é Dramaturgo, ator e diretor. Publica artigos apimentados sobre teatro e a vida artística em geral, dentro e fora dos palcos, toda sexta no Oficina. Leia
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