O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA

Produtores e Realizadores internacionais resolveram, por bem, oferecer aos cinéfilos de todo mundo uma obra baseada no livro de Gabriel Garcia Marques.

         O filme é bonito e bem adaptado, em que pese adaptar um romance, inda mais em se tratando de um Nobel de Literatura. Na imagem fílmica a história pode até ficar outra. No entanto, no caso desse específico “CÓLERA” pesou mais o colonialismo.  Os produtores escolheram atrizes e atores que ganharam ou foram indicados ao Oscar, sendo todos artistas latinos ou de língua latina. Todos excelentes. Fernanda Montenegro (Brasil), Javier Bardem (Espanha), Giovanna Mezzogiorno (Itália), mexicanos, colombianos,  tendo ainda a voz de Shakira para completar a sonoridade latino-americana, com um cancioneiro lamentoso da América do Sul e Central. A paisagem caribenha dava sua cor lapidada em tons de sol e céu anilado.   Porém, todos os artistas falavam no idioma inglês, que mata o texto e, no caso,  mata a interpretação. Para o ouvido limitado do americano do norte, atrizes e atores, falando em inglês, carregam no sotaque e, isso já será considerado outra língua lá para eles.

         Um bom exemplo é a modernosa adaptação d’O CRIME DO PADRE AMARO, em espanhol-mexicano. Porém, no “CÓLERA”, a metrópole manda. A colônia obedece. Fala mais alto a voz do mercado. Fala mais baixo a língua castelhana, que, apesar disso,  vem ganhando seu espaço no planeta.

         O treinamento mais intenso que precisamos ter é o de pensar originalmente, mas, frequentadores assíduos de novelas não terão essa oportunidade.

         Ler outros autores que não o mago Coelho também será obrigatório e, para quem gosta de andarilhagem e coisas de Santiago de Compostela existe um livro escrito em Mococa /sp, autor local,  que conta, com realidade, como se faz aquele caminho. Autor: Itelberto Peres. É pegar e ler e se manifestar, pois, permanecer refestelado e contemplativo não faz a cidade andar.

         Mas, a peste colérica ganhou a parada e a plêiade de artistas passou a falar em falso inglês. Os latinos freqüentadores de cinema terão que se ater a legendas nos filmes importados da Metrópole, como sempre.

         Dessa forma fica a sugestão: bolar roteiros e enredos de peças teatrais sem texto algum.  Assim todos entenderão, independente do país e do idioma, até mesmo no Japão. Será um produto de exportação facilitada.

         A educação no país  já é precária.  As obras na tela grande consomem o que nos resta da linguagem com péssima legendagem, e piora se não assistirmos os nossos produtos cinematográficos brasileiros. Valorizar a obra brasileira, então, é obrigação de todos e independe de gostar ou não. É necessário aprender que existem múltiplos olhares para se enxergar a realidade. Aprender que o modo americano de fazer filmes é apenas um deles e não é, necessariamente, o melhor. Existe o italiano, o hindu, o francês, o alemão... cada um em sua linha, cada um com sua graça e peculiaridade.

         Para acompanhar o processo de adaptação leia o livro “O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA”. Estude as imagens que o diretor do filme criou e compare com a sua imagem de leitor.  É, também esse, um exercício vigoroso para ganhar poder crítico. Para ganhar distanciamento. Para ampliar o poder de observação.

         Dá próxima vez em que for à locadora pegue somente filme brasileiro. Ou experimente os latino-americanos. Haverá muita surpresa. Exemplo: muito filme que já passou em nosso circuito – CARANDIRU ou PIXOTE – é produto brasileiro e foi dirigido por um artista argentino.

         É isso. Sucesso, vida longa e prosperidade.

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