A covardia de não ir embora

Estamos tomando um golinho de saquê enfeitado com sushis e sashimis.
Estamos sentados num tatâme fofinho com duas almofadas de encosto para cada um. Almofadas gordas, moles, deliciosas.
Estamos comemorando sei lá o que porque a gente sempre re-inventa um motivo qualquer pra comemorar. A gente comemora o beijo dado, o abraço que demorou porque ele estava no banho e ela no quarto se arrumando, os aniversários de mais 30 dias juntos, as conquistas profissionais mesmo que inventadas. Ah, como a gente comemora!!!

Estamos falando agora de amor e de como nos encontramos. Eta vida louca!
A gente fala como se tivesse sido há 200 anos atrás e mesmo assim o amor e a paixão tivessem feito um pacto conosco de nunca nos deixar. Ai, como a gente se ama.
Depois da terceira bicada de saquê uma reflexão: nossa, e se não estivéssemos junto, onde estaríamos?

Acho que eu estaria na boate, dançando sexy mesmo me achando gordinha. Eu estaria de cabelos compridos, talvez tivesse mais 2 ou 3 tatuagens. Eu estaria fazendo teatro, sem grana para pagar minhas contas entre um teste e outro de comercial de TV. Eu estaria idealizando o homem perfeito enquanto dançaria de salto alto e vestido decotado. Eu estaria solteira, beijando 2 bocas (nunca dei conta de um número que ultrapassasse 2), contando histórias, viajando com o Cris.
Eu estaria num outro trampo, saindo mais cedo, fumando um cigarro com a Carol, amargando a última relação fracassada.

Ele estaria casado, de apartamento novo, de vida nova. Ela estaria cozinhando para ele enquanto ele insistia em ver o DVD de ação que tanto ama.
Ele estaria 10 Kg mais magro, convivendo mais entre os amigos de infância, falando menos bobagens. Ele não teria aprendido a ler mais, a escrever e nunca assinaria um jornal por falta de hábito.
Ele estaria indo mais em bares, frequentando mais o EMPANADAS, indo mais em Alphaville. Ele estaria menos agitado, continuaria detestando boate e seus sons diversos e altos, tomaria menos caipirinhas e reclamaria mais que quer ir embora.

Na quarta bicada de saquê e descansando o maxilar que não parou um minuto de falar, reparamos o casal do tatâme da frente. As mesmas almofadas fofas. O mesmo saquê. Os mesmos sashimis e sushis. Só o Temaki que pedimos diferente.Ela não disse uma palavra até agora.
Ele come olhando pro sushi, confidenciando sua agonia pro shimeji.
Eles nunca vão dizer nada pro outro?
Faz exatamente 1:48 que estamos aqui. Cansei de falar, o garçom deu risada com a gente, o gerente nos perguntou quando vem o filho. Eles nunca abrirão suas bocas?
Eles são casados. Pelo menos é o que grita o anel dourado que carregam em seus dedos esquerdos.
Casados e silenciosos assim? Eu morro, juro!
Ela tem cara de quantos anos? 26 no máximo!
E ele? 29, se estiver velho.

Enquanto a gente paga a conta eles começam a discutir.
Enquanto a gente coloca o tênis, eles jogam a conta paga no canto da mesa.
Enquanto a gente é, eles se acorvadam na tentativa de ser.

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