Nosso ontem na mesa

Era para ser uma roda de amigos como tantas outras que participei.
Roda de amigos é sempre uma situação deliciosa. Fala-se pouco de presente, prevê-se menos ainda o futuro e fala-se muito de passado. Afinal de contas, não sei você, mas eu sou o que vivi até hoje. Sem tirar nem por.

Tá vai, eu concordo. Tenho uma forte tendência ao clichê. Mas me diz:
Existe coisa melhor do que estar entre amigos de 20 anos?
Conheço poucas. Sexo, um cigarrinho depois do sexo e o amor em sua total plenitude.

Mas estar entre os amigos é uma bênção para poucas pessoas.

De repente você se senta com 19 deles (aqueles que te acompanham há 20 anos) e descobre que, apesar de todas as coisas da vida, ninguém mudou. As essências estão ali conservadas nas risadas escandalosas ao lembrar que ele traiu a namoradinha da época com uma baranga de chorar, na saudade louca que dá do corredor daquela escola, na ânsia de encontrar sem sucesso 4 integrantes que se perderam por aí.

Essências que fazem, cada uma com suas moléculas de cumplicidade, alegria, amizade e amor, parte da nossa história de vida.
A Mari e o Cabral: começaram a namorar aos 14. Casaram aos 26. Hoje têm 30. Estudaram na mesma turma que eu e o Cris, o Lucas e o Rô Negão que hoje, namora com a Rafa. A Rafa é uma flor! Já é amiga também há uns 4 anos.

Pessoas com alguma energia, alguma sintonia, um inexplicável qualquer em comum que nos mantém ali.  Na mesma roda por 20 anos. Com a mesma vontade de estar junto. Mas com menos tempo, mais sabedoria e menos aflições.
 
E daí, numa tarde de sábado no almoço, você senta e dá de cara com seu passado. Com suas fraquezas, com seus antigos desejos, com seus ex-amores, com sua atual maturidade. Os amigos que iam no boliche agora falam de política, são empresários bem sucedidos, advogados de sucesso casados com mulheres bonitas.
 
É preciso olhar pro passado para entender a maturidade, para encará-la com a seriedade necessária e com a irresponsabilidade condizente. Só assim aprendi a aprender com os erros. Olhando lá atrás, me arrependendo, xingando um monte e querendo acertar.

E assim, entre as dezenas de caipirinhas e o bobó de camarão da Tia Marli, dividir a mesa com meu passado me trouxe um sentimento feliz. Um preenchimento do espaço vazio de ficar distante dessa que é, sem dúvida alguma, uma das partes da vida que mais gosto e prezo: ter amigos.
Ter passado.

Ali sentados, meus maiores amigos de infância contando pro meu marido as boas histórias que esqueci de contar, imitando meu jeito afoito, meus pulinhos habituais quando eu estava feliz.. eu nem lembrava mais, mas eu pulava tanto!!!!
De repente, em minha frente, refletida nos olhos da Rafa, a certeza de que fomos adolescentes privilegiados, mimados, antenados, alterados, sossegados, animados. Fomos de tudo um pouco. Fomos porres, baladas, velórios, festas, aniversários sem comemorações, fomos muito.  E acima disso, fomos grandes amigos.

Enquanto o Rodrigo vai ao banheiro, conto pra Rafa sobre o último Natal que passamos juntos e o vexame que o Cris deu ao beber além do que agente pudesse imaginar que um fígado suporta.
Enquanto falo, Cabral lembra alguma parte engraçada de uma viagem pro Guarujá.
 
A fotógrafa da Revista X vem e faz uma foto nossa para eternizar mais este momentinho "all togheter".
A gente faz pose, a gente ri alto, a gente come mais um pouco de mousse e conta outra do Cabral.

E entre risos, lembranças, saudades, morangos e cervejas, a gente tenta construir uma vida melhor, traçar uma linha do tempo biográfica digna, honesta e de verdade.
E enquanto não chegamos nos 40, 50 seguimos pra frente com a certeza absoluta que temos bons e fiéis amigos que sempre lembrarão do pedaço da história que esquecemos e dos muitos outros que ainda esqueceremos.

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