| O teatro e o futebol |
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| Escrito por Fernando Souza | ||||
| 03/12/08 - 23:53 | ||||
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Bertold Brecht sentia uma imensa angústia pelo fato do teatro, em seu século XX, não ter o mesmo vigor que o futebol. Assim ele afirmou certa vez: "o futebol é a mais fecunda forma de arte do século XX". É claro que, discordando de Brecht, não creio que futebol seja arte, mas o futebol tem algo a ensinar ao teatro. Já que o Brasil lidera os apaixonados pelo esporte, isso se intensifica ainda mais nesse país.
Quando vejo aquela massa de gente nas arquibancadas, minha mente passeia pelo tempo e vai vislumbrar a Grécia antiga e seu povo assistindo as batalhas e as apresentações teatrais durante todos os dias e durante todo o mês, aquelas peças longuíssimas, com monólogos poéticos e ações violentas, enquanto a platéia comia, bebia, gritava, reagia. Era a cartase! Hoje, contudo, a cartase está mais nas arquibancadas do Brasil do que nas cadeiras dos teatros brasileiros. E isso faz com que o ator siga sua rotina, sem nada de especial. Até mesmo por motivos éticos, o público de teatro muitas vezes não tem a coragem de se levantar e gritar para os atores como na Grécia antiga. Mas isso seria maravilhoso! Creio que o verdadeiro valor do teatro é provocar alguma impressão que faça com que a gente sinta raiva, ódio, emoção à flor da pele, que nos faça levantar e gritar com os atores! Infelizmente, isso nos lembra ser selvagem. De fato, nossa sociedade é comedida e isto não é nenhum defeito: os atores ingleses são mais concentrados e disciplinados que os brasileiros (que, por serem latino-americanos e tropicais, são capazes de quebrar um pescoço em cena). Sendo assim, há maravilhosos atores da Inglaterra e de toda a Europa. Há também maravilhosos atores no Brasil. Eu queria ser mais claro. Eu queria ligar a televisão e ver o público de teatro tão entusiasmado quanto o público de futebol, e até mais. Eu queria que acabasse a burguesia, que o teatro também fosse visto nas ruas (de onde se originou e onde é seu verdadeiro palco). Como isso não é possível, me resta ver todos os benefícios que esse sistema (o de levar o teatro para grandes edifícios, onde só têm acessos os mais ricos) nos apresenta. Ter um certo glamour em cena é algo que conferiu ao teatro um valor artístico de riqueza. Mas isso não basta, o teatro é muito mais (e precisa de muito mais).
Eu e Bertold Brecht queremos que a cartase mude a nossa vida, e a vida da nossa sociedade! Nós queremos que o futebol nos dê todo seu vigor. Leiam bem o que vou escrever agora: se esse vigor for acrescido novamente (novamente porque já existia, como eu disse, na Grécia antiga) ao teatro, aí haverá uma experiência única. Aí o teatro cumprirá seu papel. Esse papel não é só o do mero divertimento: é preciso que aprendamos algo comHamlet. Acho que, ao contrário do esporte nos estádios, se houver esse vigor nos teatros haverá uma única causa que vai estimular toda a gente e, ao contrário do futebol, não vai haver brigas entre inimigos e times (porque isto não existirá). Existirá, isto sim, uma idéia que vai unir o público para o aprendizado. Já que o parágrafo acima deixa muitas brechas, quero finalizar esse meu primeiro artigo apontando algumas aprendizagens que poderíamos retirar de determinada peça. É sensato eu pegar uma peça que foi encenada recentemente nos palcos brasileiros. Vamos pegar A Alma Boa de Setsuan, do próprio Brecht, encenada por Denise Fraga. Resumindo, a peça conta sobre uma cidade chinesa, Setsuan, que é visitada por três deuses (na versão de Fraga, apenas um) com o objetivo de procurar uma alma boa. Eles encontram uma chinesinha (interpretada pela Denise), que lhes dá abrigo. Pronto! Eles encontraram a alma boa! Pagaram a anfitriã e foram embora. A anfitriã era prostituta, mas com o dinheiro pôde abrir um negócio e dar a volta por cima. Com o dinheiro do negócio, também achou possível beneficiar seus vizinhos. Eis que aqui mora o clímax da peça: os vizinhos começam a abusar da chinesinha e ela, cansada, decide se fantasiar de um suposto primo que chegou para cuidar de seu negócio. A partir daí a história é previsível: o "primo" tem um comportamento totalmente ao contrário do dela (ele é bravo e só dá as coisas se trabalharem pra ele). Brecht é tão atual! Ele está representando aqui nosso lado bonzinho, nosso lado que dá tudo, faz tudo, está sempre disposto a se ajoelhar pelos outros. Sob minha ótica é, sobretudo, um lado egoísta: eu te trato bem visando o que você me dará em troca. Se identificou? Ou identificou alguém próximo? Se você não me der o que eu quero, eu vou ficar emburrado e colocar a culpa em você. A história é sempre a mesma: "Mas eu te tratei tão bem e você veio com quatro pedras nas mãos..." Esse é o dilema de todos nós, e acho que do planeta inteiro. As vítimas são freqüentes nos programas televisos. Mas esse papo dá um outro artigo. Por enquanto, fico com esse sentimento de vislumbramento ao sentir a verdade do teatro, essa verdade que nos permite aprender coisas para as nossas próprias vidas! Quando o público de teatro tem esse tipo de sentimento, acrescido ao da Catarse, e mais ao do vigor típico das arquibancadas de futebol, aí temos o que eu chamo de arte. ![]()
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Comentarios (1)
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Cassandra Ormachea
said:
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... Fernando meus parabéns pelo seu artigo! Ele resume muito dos meus sentimentos em relação ao púbico, tanto do futebol quanto do teatro. Sinto pelo público do teatro não reagir de forma natural e espontânea, por exemplo, à uma cena de injustiça ou de tortura. Seria ótimo que as pessoas se sentissem à vontade para expressarem aquilo que sentem após assistir alguma peça. Novamente, meus parabéns! |
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