DESISTIR DE NÃO SOFRER


Coelho De Moraes

 

O que seriam atores? Loucos sob controle?

A psicopatologia tem a ver com a descoberta de que nossa experiência psíquica é sempre sofrida. São durezas. São ataques repentinos. São formas de subtração. São formas de reconstrução.

Mas a construção da personagem é parto que se faz a cada ensaio. Os detalhes do corpo. Os detalhes da fala e da voz. Os detalhes das formas de pensar.

Tem a ver com a (re) construção de visão da dor de cada um; singularidade ligada à história do desejo e da frustração do desejo de cada um. E sobre o palco é o que mais se assenta. Não reafirmaria a historia do desejo, mas, a pratica histórica de apresentação do desejo. Em seguida sua frustração, favorecendo a historia que se conta. E mais contemporaneamente a possibilidade de nada se resolver e vermos a peça terminar com uma incógnita. Desejo suspenso. Frustração. Retorno á realidade.

Em termos de coletivo de trabalhos gerais de equipe teatral tem a ver com a aceitação criativa que o outro propõe, muitas vezes diferente da referência que o diretor deseja; o FIXO em teatro não existe; existe sempre o DINÂMICO de onde deriva a palavra DRAMA (aquilo que toma movimento); existe a atitude não resignada, mas respeitosa, atitude não submissa desta experiência, que no fim, é a experiência de sofrimento e dor (não a dor que nos leva à pena, mas, sim, a dor da parturição, a dor de dar à luz, dentro das devidas  proporções que só as mulheres sabem como é).

Essa dor, que é uma dor expositiva, dar à luz, expor no palco,  está ligada à história de cada um e tem que se mesclar com a história de todos; um grupo é um fenômeno; um grupo de artes cênicas pode passar por processos, mas o coletivo bem equilibrado é fenômeno.

A análise poderá ser um espaço de experiência e de criação de si; a análise em relações humana é coisa importante; análise em teatro é terapia coletiva obrigatória,  onde se aprende com a própria dor e se aprende a desistir de sofrer, pois caso contrário não haverá obra para encenar.

Atrizes e atores estão propensos ao sofrimento.

Uma das condições, além da vaidade, da autopromoção, da vitrine, do orgulho de se mostrar, de ser contador de historias, é a de que se prevê um sofrimento a cada noite de espetáculo (com ou sem Stanislaviski).

A atriz e ator estarão prontos para doar pedaços da alma.

Questão esta que está inserida nos canais da livre escolha. Livre escolha da  alma, subir aos patamares superiores do palco e expor noticias de todos os tempos com variadas roupagens e interpretações: atriz e ator tornando-se divinos, passo a passado com os deuses do teatro.

Se Pico de la Mirandola  opera com a retomada da idéia do ser humano como microcosmos do universo, sabemos dizer que o ator e atriz são deuses do espaço entre de palco que se lhes é reservado a cada apresentação.

A questão já representação, (re) apresentação dos fatos é coisa já presente na mitologia das mais diversas culturas da antiguidade. Se tal idéia implicava a definição do ser humano como um produto composto das coisas do mundo, (através da persona o mundano se abate sobre a Terra), em Pico de la Mirandola ressurge um conceito que nos faz pensar em outra direção: acentuar sua diferença essencial, que se dá pelo poder

inerente ao espírito artístico, de poder assemelhar-se a qualquer elemento, graça, força, imagem, idéia,  segundo sua própria vontade, sem ter, no entanto, forma definitiva em nenhum deles, pois a natureza do artista define-se por seu movimento e por sua insubstancialidade.

Fala Pico:

“A ele foi dado possuir o que escolhesse; ser o que quisesse. Os animais, desde o nascer, já trazem em si, o que irão possuir depois. Os espíritos superiores, a partir do início, ou logo depois, já eram aquilo que pela eternidade seriam. No ser humano, todavia, quando este estava por desabrochar, o Pai (os deuses)  infundiu todo tipo de sementes, de tal sorte que tivesse toda e qualquer variedade de vida.

 

Ou seja, está no ser humano a multiplicidade de representações. O ser humano como espelho múltiplo. E isso não é feito sem dores.

Talvez não exista uma concepção mais extravagante da liberdade humana. Self flexível, moldável, alterável, que todos praticam no dia a dia das ruas , que atriz e ator escolhem praticar no dia a dia dos palcos.

Concedem, os deuses do teatro, ó Dioniso, ó Apolo,  ao ser humano a capacidade de moldar-se de acordo com sua vontade, transformando-se em besta, planta ou anjo.

Esta proposta de Pico rompia com a concepção escolástica (ver Tomás de Aquino), segundo a qual, o SELF é fixo, e, inalterável, dado por sua posição no cosmos; sem contar  a tradição agostiniana (patrística), que enfatiza a intervenção da Graça divina, na salvação da natureza humana corrompida pelo pecado, predestinada ao inferno.

Mas os deuses dizem que ninguém está perdido nem vai ao inferno que é região que não existe pois teríamos que aceitar um lugar onde não se dá a presença divina. É que os humanos usam muita máscara e se perdem nelas. Os artistas de teatro estão ai para que, usando máscaras, sofram ao removê-las nas peças e escancarar a verdadeira face humana.

 

 

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