Coelho De Moraes
A capacidade de conviver com a diferença, - em teatro tem que ter muito disso, - mas, diga-se, em teatro em não em vitrines religiosas ou exposições escolares medíocres, - sem falar na capacidade de gostar dessa vida inconstante e bela, dessa fatia de tensão e gozo, e beneficiar-se dela, não são coisas fáceis de adquirir.
A capacidade de tentar é uma arte. Conseguir é outra situação. Ser reconhecido pela arte já é bem outra circunstancia e depende de subjetividades. Mas ser reconhecido: - Por quem? Outras autoridades? Os mestres? O público que goza gratuito sem outra intenção do que ter o prazer de assistir a atriz ou o ator? Ganhar dinheiro vendendo a arte? Muito dinheiro saído das burras governamentais ou pouco dinheiro das bilheterias? Ser reconhecido: De que é que falamos, enfim?
Uma arte falida é uma arte que depende do apoio do governo, da mesma forma que Brecht teria dito que se precisarmos de herói estaremos perdidos... pobre o povo que precisa de heróis... pobre é o teatro que precisa do dinheiro governamental. Sim, pois, esse tal dinheiro governamental, por projeto ou por PAC, nada mais é que uma ditadura em ação. Pagar antecipadamente a bilheteria que a população não quer frequentar... desviar o dinheiro que a população pagaria para a obra que as pessoas não podem levar por si mesmas... Se a obra que consegue recurso sobrevive por que não a outra? Por não ter o captador de recursos mais eficiente?
Toda arte requer estudo e exercício. O Teatro não deixa barato nesse campo. Mas pouca gente deste saite ou de outros praticam ou estudam a técnica adequada ou a escola possível. Periga repetir o mesmo erro ou descobrir a pólvora. A incapacidade de enfrentar a pluralidade de seres humanos e a ambivalência das decisões no palco ou na produção se perpetuam e reforçam os erros: quanto mais eficaz a tendência ao igual, - copiando o programinha da TV, - melhor será para a pobre mente não criativa. Daí os projetos e os PACs.
O esforço para eliminar a diferença é a tônica dos grupos, afinal quem é que quer encarar o novo? O novo é assustador. Será, então, tanto mais difícil sentir-se à vontade em presença de estranhos, - o público, o crítico, o observador, o hipnotizado, - tanto mais ameaçadora a diferença e tanto mais intensa a ansiedade que esta gera.
O projeto de esconder-se atrás de máscaras e pinturas pode ser uma explicação para o adorno que vem acompanhando o teatro há milênios. Do impacto enervante da barulheira e multimídia urbana nos abrigos da conformidade, até a repetidora ânsia de ser igual aos modernos cosmopolitas que o caipira leva na monotonia e repetitividade comunitárias de suas cidades, é um projeto que se alimenta, mas que está fadado à derrota.
A derrota no sentido de que será cópia malfeita. Cópia industrializável. Cópia própria para consumo ou comercial. Nada a ver com arte.
Tribos teatrais: Proliferam e é positivo. Há que se multiplicar o amador. Será ideal rasgarmos o DRT que é um soutien da via crucis da ‘profissão’. Isso será ousar e cumprir caminho próprio. Ao contrário de outras identidades, a idéia de multiplicidade de tribos teatrais é carregada de peso positivo. Supõe casamento divino entre Dioniso e Orfeo, que nenhum esforço na terra pode desmanchar, - laço de unidade que precede toda negociação e eventuais acordos sobre direitos e obrigações. Mas pode sugerir com o rompimento com o caminho profissional usual.
A homogeneidade que marca as tribos é ilusória. Até se amalgamarem aos modelitos dos eixos centrais (Rio/São Paulo, por exemplo) as tribos teatrais continuam heterônomas: 1) como artefato humano, e certamente 2) como produto da geração de humanos criativos. Não surpreende, pois, que as tribos teatrais, mais que qualquer outra espécie de identidade, sejam a escolha quando se trata de fugir do assustador espaço polifônico onde "ninguém sabe falar com ninguém e pretende falar igual ao mestre"; o que as tribos pretendem, no primeiro momento, é escapar do "nicho seguro"; num segundo momento, quando aperta a bolsa em dividas e falta de apoios, pretendem seguir para onde "todos são parecidos com todos" - e onde, assim, há pouco sobre o que falar e a fala é fácil.
Surpreende que outras tribos teatrais, enquanto reivindicam seus "nichos na sociedade", queiram tirar lasquinha da igualdade com certos pares; investem nas próprias raízes culturais, repensam as tradições, revivem a história compartilhada e projetam futuro comum; sua cultura separada e singular merece ser considerada "um valor em si mesma".
Resta que oremos, então, para que Dioniso e Orfeo ampliem o som de suas trombetas e liras para que as mentes do teatro vitrine e as tribos doutrinadas deixem de existir por simples e obrigatória falta de importância na questão teatral e na questão da criação do novo.
Coelho De Moraes
Primeiro lá se vão os valores da crença. Depois acredito que a civilização já se foi criada por acidente, num longo processo, e é, hoje, mundo artificial, em relação aos caminhos que natureza tomaria por si só. Daí que a fantasia humana de representar, re-apresentar, nada mais do que a cópia dos constantes DeVir. O teatro deve durar para sempre pois é reflexo do constante mudar da natureza. Sempre com a interveniência humana. Essa formação livre a partir de algum acidente ou acaso é que levou a civilização a ser o que é. O ser humano toma dessas informações e rearticula tudo no palco, na musica, na arquitetura, nas artes.
Mas estamos, como já disse, num constante DeVir. A mutação articulada pelo fazer humano causa novas mudanças e tudo parece organizado em mudanças constantes. Porém surge o engano da manutenção do estado. Há reações, - os reacionários percebem que seu mundo mudou e não querem nada disso... agem pois as mudanças são sempre diferenciáveis e causam problemas.
É isso o que nos faz individualizar. O reacionário é bandido, age em bando, é o adolescente da gangue, o reacionário é infantil, pueril. O que nos faz crescer, desenvolver e depois cair. Há processo nesse movimento. E ele se repete com todo mundo.
Contudo, a criação humana, dentro da civilização que lhe é prisão, visa tentar explicar o que deu errado nos primórdios quando os deuses eram nosso primos diretor e moravam ali na esquina. Dizem que houve época em que os deuses andavam conosco pela terra. O que é que deu errado? Somos muito chatos? O mal estar imperante na civilização advém da constatação do tédio que causamos aos deuses? Outros dizem que os deuses nunca existiram. Nenhum deles e que não passam das máscaras com as quais o artista sobe ao palco. As formas artísticas são buscas desta correção. O produzir, criar e moldar são reflexos da imagem de um deus inexistente que um dia criamos.
Acredito que a catarse, ou o "caimento da ficha" Aristotélico pode até rolar numa platéia e dali a única coisa a ser produzida será a modificação daquela pessoa ou sua conduta dai em diante. Servirá o teatro para isso? É atividade educadora? Alarmista? Instigadora?
Para o artista no entanto, se este produz dentro fórmulas e rótulos não haverá catarse. Quando o novo advém, será novo até para o criador, este tem que se emocionar com isso, sendo novo será inexplicável e será assombroso também para quem cria.
Alguns assuntos são sempre repetidos. Sobre essa coisa de sentir, por exemplo. Tirando o fato de que sentimos o tempo todo pois somos matéria, e é ela quem sente, tudo tem que passar pela estética (esthesis sensibilidade do corpo). Manuel de Barro é poeta mas não fala de coisas das emoções como valores maiores. Para ele o que vale é a praticidade do objeto ou da funcionalidade da coisa. Para ele muito menos poesia é falar de rosa e muito mais é falar de alicate e borracha. Terá o teatro e o texto dramatúrgico caminho similar? Terá mele que nos dar constantes lições de moral ou também será ninho de disparidades e questionamentos coletivos? Será vitrine?
Penso também que nada criamos, apenas reciclamos as proposições e fazemos múltiplas releituras, daí as repetições de pensamentos, palavras e obras. Nada há de original em ‘fusions’, por exemplo, pois é pratica que se executa há milênios: misturar tendências, mas em graus pequenos ou quantidade conta gotas.
Muita vez a eclosão da iluminação já se deu em algum lugar há muito tempo mas o iluminado não tem acesso a mídias e passou despercebido. É uma questão lugar e oportunidade.
Acredito que criar sob os efeitos da civilização que já havíamos criado, ou pelo menos, participado da criação, da construção, mesmo sem saber... é chover no molhado ou no mínimo rever o que lá já está. É copiar o que já existe. Todo o aspecto da cultura é aspecto do campo artificial. A realidade é artificial. Nem tenho muita certeza de que somos seres conscientes pensantes ou apenas jogamos com os dados que nos foram dados. Quando pisamos o palco elaboramos trejeitos e mímicas. O mimo é a copia da aparência e não da profundidade: Stanislavisky pode ser deixado de lado?
O mundo das idéias e a questão do demiurgo, na minha pobre concepção, são apenas substitutos dos deuses do Olimpo, já por si rarefeitos. Uma espécie de recriação da mesma idéia com roupagem acessível ao governante que é apedeuta. Prefiro a proposta de que não há tal mundo de idéias nem há modelo perfeito a ser seguido, mesmo por que tal pensamento foi capturado pelas hordas cristãs e transformado em céu e em inferno.
Fico com a proposta de Michel Onfray e da realidade como modelo único e a busca da perfeição um modo de superar a realidade. A cada peça uma proposta. Na mesma peça a mudança da proposta a cada dia.
Não há quem não esteja à flor da pele, armado feito bomba, pronto para explodir à primeira palavra que lhe contrarie. Isso é aparente e está estampado no semblante de cada um, basta andar com o olhar mais atento pelas ruas. Estamos sofrendo e, já são tantos males, que muitos de nós, nem achamos mais graça em quase nada e, a cada dia, enterramo-nos mais e mais neste poço de angústia.
A tecnologia, o progresso, a velocidade com que nos comunicamos, afasta-nos cada vez mais. Preferimos um “scrap”, a um forte abraço de feliz aniversário. E nos isolamos. Ficamos cada vez mais carrancudos e taciturnos que, a vida na cinzenta cidade, torna-se cada vez mais cinza. E os males que nos rodeiam, atacam sem dó. Parece que não há remédio, seja ele alopata, ou homeopata, que nos faça reagir.
Tudo é motivo para brigas, discussões e comportamentos agressivos. Busca-se apenas diversões efêmeras e vazias e, assim, sentimos-nos mais vazios. E como curar essa sociedade entrelaçada nas teias que ela própria criou? Doses e mais doses de arte. Sim, arte de qualquer espécie. Desde a Grécia Antiga que a arte é o antídoto perfeito para aliviar os males da população.
Levem as pessoas à um recital, à um concerto, à uma ballet, convidem as pessoas para assistirem uma peça de teatro, ou quem sabe um bom filme. Ou por que não convidá-las para ver uma exposição? Talvez levá-las à uma pinacoteca, ou ao lançamento de algum livro? Só arte é capaz de resgatar a emoção encobertada por tantos males que afetaram corpo, mente e coração.
Não é preciso que se dê uma overdose de arte, bastam pequenas pílulas a ca-da dia, que aos poucos, as pessoas começarão á sentir os efeitos regeneradores que a arte provoca. A arte faz com que as pessoas parem por um segundo e esqueçam dos seus problemas, das suas angústias, das suas dores, dos seus males, e, assim, gota a gota, dia a dia, aos poucos, elas vão recuperando a alegria de viver.
Sei que não é fácil, portanto, o tratamento deve ser contínuo para que seu efeito seja duradouro. Eu mesmo confesso, a vida atribula, por vezes, me entrelaça em suas redes e sou acometido de todos os males da vida moderna, mas, mais do que depressa, vou procurar uma boa dose de arte para me devolver o poder de me emocionar, de me comover, de entender o quão é difícil a tarefa de ser um “Ser Humano” nos tempos de hoje.
Quem duvidar que a arte tem mesmo esse poder, pode experimentar uma dose de qualquer uma delas. Aposto que se surpreenderá com a eficácia do tratamento e não demorará muito para sentir os efeitos curativos da arte no seu dia-a-dia.
Como ficar alheio ao forte crescimento das redes sociais? Hoje em dia não tem quem não conheça alguém que não faça parte de pelo menos uma das redes sociais existentes. O conceito de se relacionar nos dias de hoje, passa necessariamente por uma dessas redes sociais e, muito do que acontece fisicamente na vida das pessoas, tem ou teve o seu início, em uma delas.
Estar fora de uma dessas redes é como ser um peixe fora d’água, e isso parece ser um fato consumado, pois o poder de alcance que tem essas redes sociais é enorme e quem tem algo a oferecer, não pode deixar de explorá-las, por isso, que as artes fizeram dessas redes o seu maior veículo de divulgação, promoção, troca de experiências e rede de contatos.
Desde os primeiros passos das ferramentas da internet que possibilitavam a divulgação de seu talento por meio de redes sociais, que os músicos se lançaram na rede e expuseram sua arte, levando o seu “som” até o seu público-alvo. E quantos músicos não se tornaram sucesso tendo as redes sociais como grande aliada?
Hoje já é possível bem mais do que disponibilizar músicas para serem baixadas pela rede. Hoje é possível disponibilizar além das músicas, o show, a peça de teatro, o filme, e até mesmo se alto promover, mostrando ao mundo, todo o seu talento. O artista nunca teve tantas formas de demonstrar a sua arte, como tem hoje em dia.
Muito embora ainda haja quem torça o nariz para toda a exposição que muitos fazem por todas essas redes, a facilidade que elas trouxeram às artes, é imensurável. Tanto que foi graças á essas tantas redes sociais que fiz os meus textos conhecidos em todo país e no exterior, tendo vários deles montados em várias cidades do país, além de Portugal e República de Cabo Verde.
Hoje, as redes sociais, tem uma grande importância para mim, pois permite que eu mostre às pessoas um pouco do que faço. É através delas que divulgo o meu trabalho de dramaturgo, roteirista e escritor, que disponibilizo os meus textos para “downloads”, que coloco os meus artigos e pensamentos ao julgamento das pessoas e que estreito laços com outros profissionais, trocando conhecimento e experiências.
Do início do século, aonde meus textos não iam além das minhas gavetas, até os dias de hoje, muita coisa mudou em mim, na minha forma de escrever, na forma de divulgar o meu trabalho e muito disso, devo ás redes sócias. Então, quem quiser conhecer um pouco mais do meu trabalho, pode acessar o meu blog http://psacaldassy.wordpress.com, ou me adicionar no “orkut”, ou no ‘facebook’, ou ainda, para aqueles que quiserem, me seguir no ‘twitter’.
Hoje não está nada fácil escrever um texto infantil, se já não bastasse toda a complexidade que é contar uma história para os pequenos, um outro problema vem contribuindo para essa dificuldade, a questão do politicamente correto. Mas, qual o politicamente correto? O meu, o seu, ou o da criança? Será que a criança não direito de enfrentar as situações adversas? Alguém perguntou para criança o que ela acha tudo isso?
Esse zelo exacerbado que chega às raias da neurose, está tornando o ofício de escrever histórias para crianças algo quase mecânico, pois nada pode. A inocência da criança que brinca com as situações que ela vivencia, está sendo fortemente vigiada. E, se já não bastasse toda a violência urbana que acabou empurrando as crianças para dentro das casas, querem decidir o que a criança pode ou não pode assistir.
A onda do “bom-mocismo” que tomou conta do país acabou extrapolando e tornando situações que outrora eram naturais, quase proibitivas. O que seria de Maurício de Souza se tivesse criado nos dias de hoje, “A Turma da Mônica”? Chamar um menino de “Cebolinha”, um outro de “Cascão” e uma menina de “Gorducha” e “Dentuça”, lhe decretaria o fracasso, jamais se tornaria o sucesso que é nos dias de hoje. Como tudo na vida, o excesso de preocupação, acabou criando um monstro, e querem que fechemos as crianças em redomas de vidros, distantes de todo e qualquer mal.
Será que tal atitude está fazendo bem para as crianças? Como elas poderão discernir o que é certo ou errado? E como elas vão saber se isso ou aquilo é certo ou não, se estão limitadas a aceitar apenas o que lhes é imposto como politicamente correto diante dos olhos de alguns? A sociedade está escrevendo um texto infantil com uma lição de moral no final. Algo muito ruim para criação do cidadão de amanhã.
Quando penso em escrever algum texto, contar alguma história infantil, sinto até um frio na espinha, pois sei que certamente enfrentarei muitos problemas, porque pra mim, criança é criança e tem de ser respeitada como um consumidor da minha literatura e do meu teatro e sempre falarei para ela, olhando nos olhos dela, e usando a sua linguagem. A única coisa que faço questão é de que a criança tenha a sua impressão sobre o que escrevi. Ela que vai dizer o que é certo ou errado, e não eu! Eu apenas lhe mostrei as situações.
Preocupações com a violência, com a educação, com as drogas e com tudo mais que cerca o universo infantil nos dias de hoje, eu também tenho, pois sou pai. Mas não posso querer esconder das minhas filhas, algo que a vida por certo lhes mostrará. E pintar o mundo de cor-de-rosa, querendo que só o bem faça parte, é utopia. A vida é feita do bem e do mal.
Por que será que os vilões fazem tanto sucesso? Porque os vilões é que tornam os heróis, exemplos para criançada. Impedir, esconder, disfarçar todo mal que há no mundo, não vai livrar a criança dos problemas. O melhor é deixar que os autores, usem a sua criatividade, abusem do lúdico e falem a língua da criança, colocando no papel, as situações comuns às crianças. Ou será que as crianças de hoje não tem mais apelidos?
Coelho De Moraes
O espírito livre é arrojado: enfrentará a possibilidade de naufrágio de sua fantasia, mas é de fantasia que falamos e de apresentação dessa fantasia sobre palco, endereçada para muita gente que assiste e corre o risco de bater palmas – TEATRO. O ensaio de cada peça, de cada rotina, de cada cena ou detalhe retoma o ócio infantil e o entusiasmo pela repetição que leva ao caminho da perfeição, - nunca alcançada. Condição de espelho o Teatro é o reflexo da platéia que se olha, havendo mudanças e alteridades. Como o poeta efebo que goza a influência do mestre, mesmo que este lhe passe a mão várias vezes com o mesmo gozo – sinais de bênçãos? - até encontrar a liberdade de sua letra e de sua obra e de seu expressar, e viver a angústia final cuja influência é a de não poder não escrever: transforma-se em autor singular. O ensaio termina quando encontra o fim, a exaustão, quando é abandonado, pois se estanca para não prosseguir no que está dizendo, sendo esta a hora de uma alteridade anônima verificar sua demonstração. O fim do dia não é fim de ensaio. Mas apenas parte do fim. O fim do ensaio é quando traz a exaustão intelectual, ou emocional, ou espiritual. Momento raro. A exaustão física não traz nada. Traz a cama, talvez.
O ensaio reflete, não contenta, não classifica. O ator, o dramaturgo, o encenador, a atriz, possuem inteligência desviada: deliram e inventam coisas onde nada há. Pura subjeção. É a ficção que lhes serve de sangue, de linfa, de suor, de adrenalina, buscando o domínio da invenção, da criatividade diante do já feito, já visto, e também do nunca tentado. Uma espécie de beira do abismo. Reúne, portanto, o ser humano de fatos da ciência com o ser humano aéreo da poesia. O deus da tecnologia, sei lá quem é, com Orfeo e sua lira. Aceitam o terror da proibição de dizer além do já dito (ADORNO, 1965). O ensaio possui uma autonomia estética, - para quem consegue lapidá-lo, - e desconfia do modelo canônico e positivista de conteúdo. A máxima que surge é aquela de se ouvir que não importa a história mas o modo como ela foi contada. Vale a voz da atriz e do ator. Valem seus movimentos e seus corpos ocupando espaços impensados. A história será secundária. Às vezes tem que ter história pois o aprendiz de ator não acha que faz teatro de usar uma roupa grega, por exemplo. A consistência não brota da retirada do sujeito dramaturgo da equação, de sua supressão em favor da quimérica neutralidade literária; a consistência brota de sua inclusão e revela um autor na opacidade, ilustrando as cenas como espírito criador à distância, na pior das hipóteses; ou, na melhor das hipóteses, um autor cuja clareza é cortesia de gênio.
Para quem participa ativamente dos ensaios, autônomo na estética, não existe imposição da forma tradicional, mas somente aquela do espírito poético literário dogmático e obstinado. Como na literatura de Proust, traz-se à tona a sensibilidade do escritor/dramaturgo que vai além da arte e é capaz de enunciar conhecimentos profundos e sólidos sobre o ser humano e sua posição no universo.
Pensemos com Freud: o escritor/dramaturgo, sua sensibilidade, possui a coragem de deixar falar o inconsciente (a obra de arte é uma confissão do autor/dramaturgo, exposição de alma, explosão de espírito); capacidade de perceber pulsões ocultas no espírito das coisas e das pessoas outras que lhe são reflexo.
Os escritores/dramaturgos desejam proporcionar prazer estético e intelectual através de efeitos emocionais. Não podem re-produzir a matéria da realidade sem modificá-la. É necessária a transcrição, a adaptação, a alteração de sentidos quando se trata de peça que tem 500, 200, 10 anos de idade. Tudo deve mudar. O texto não pode ser intocado. Não pode haver direito autoral sobre coisa inspirada na realidade de terceiros. A ficção é audaciosa: mas a renúncia ao princípio do prazer (Freud cita sobre a ciência como sua mais radical representante) é relativizada na forma do ensaio, da repetição :- toda ficção deverá ser corrigida pelo diálogo com a alteridade. E alteridade é princípio de realidade. O outro é o dono do direito autoral e não quem retirou dali as letras do texto.
Em provisória análise, o ensaio deve romper com a tradição de impor percurso de aquisição de conhecimentos. Atrizes e atores não podem temer desafios, pois desafios é o que mais há nessa profissão. Atriz e ator buscam a complexidade de um autor/dramaturgo, de um tema. O ensaio não tolera o engodo de que para entender o complexo é preciso primeiro cortejar o simples. O ensaio é como a vida: sempre inconclusivo para o seu autor/dramaturgo/encenador, pois no dia da morte, no dia da estréia, apenas os que ficarem poderão falar do que restou, enquanto o autor/dramaturgo/encenador jamais poderá extrair aprendizagem da vivência radical e derradeira que é galardão de atrizes e atores.
Enquanto se vive, se pode ensaiar. Mas, o espetáculo é, também, uma forma de ensaio e não haverá outra chance para cada ato, cada cena - o autor é ator de um drama singular, inadiável e intransferível que lhe compete na escrita e na criação das ligações perigosas.
É amarrar a alma numa âncora, deixar longa corrente, e lançá-la no palco.